Um segundo grito é viver num filme…

“Sem se importar” deveria ser sua própria regra cara! Põe pra fora suas preocupações e suas lamúrias diárias, e depois de desopilar tudo, perceba, é com você mesmo. Tudo aquilo que você condena e está em uma grande batalha para se fazer melhorar como ser humano aqui e agora.

As histórias passadas, as experiências adquiridas, todo um conhecimento para saber como se portar em convívio social, independente de qualquer variável que tenha. Ir além da apatia e do conformismo e entendendo seus limites físicos e mentais, tendo também então mais entendimento com o que se pode ou não fazer e aceitar. Sempre socialmente falando. E daí que vem as regras, as leis que você segue sem questionar ou sem procurar entender tantos porquês. E não questionar é irritante, mesmo!

Pelo cinema essa questão é tão clara e subjugada que todo mundo acha o máximo o super-herói salvar o mundo ou o casal que brigou o filme inteiro, mas que foram felizes ficando juntos no final. Sabendo que jamais irão viver tais aventuras, vivem nas idealizações hollywoodianas, de tudo ser sempre perfeito, no entanto, é sempre no futuro, nunca no agora. Um futuro que é igual para todos, conheço pessoas que compram seus jazigos bem antes de morrer.

Aliás chega-se aqui ao ponto que me perturba muito, pois vejo que me atrapalha buscar por respostas claras. Por mais ideias que existam por ai, não existe um consenso comprovado do que é “viver a vida”. Acordar com alarmes, sair cedo para trabalhar, trabalhar em algo que nem sabe se gosta, ou pior, que se faz de forma mecânica. Comer no automático, ir ao banheiro da mesma forma. Comprar coisas que não se usa, principalmente roupas, e olhar pra um armário lotado e escolher sempre o mesmo “uniforme”. Utilizar um transporte público que não funciona direito e ai sim você pode dizer que “sobreviveu a uma peripécia” em sua vida, afinal com tantos acidentes e problemas nas ruas, usar o carro ou o metrô em cidades grandes é quase comparável ao trajeto do Frodo em O Senhor dos Anéis. E ao voltarmos pra casa, nos jogamos no sofá em frente a TV e sumimos. Não tem boa noite, não tem afagos de amores, não tem uma janta feita com carinho. É bem triste e não conseguimos definir “vida”. Parabéns as ovelhinhas!

Basicão #1

Desde a infância brincava com bonecos feitos de papel. Inventava mil jogos, montava times inteiros de futebol e voleibol. Criava personagens de luta-livre como aqueles em que eu assistia na TV, e carros de corrida para sonhar que um dia poderia correr como o Senna! Também produzia monstros diferentes, animais selvagens e super heróis coloridos, tudo só com uma folha de papel, canetinha e tesoura. Passava horas e horas elaborando as histórias e tinha um baú cheio de papéis cortados nos mais variados formatos. Eu gosto muito de origami, mas o papercraft me empolga mais, pensar em que tipo de geometria tem que fazer para encaixar as peças e montar um castelo, uma montanha, uma baleia.

A partir dessa ideia criei para vocês o “Basicão #1”, para que possam pirar a vontade dentro de uma peça retangular simples. Se for inventivo dá pra ter acessórios, variar nos formatos de pés e mãos, colocar orelhinhas e com um cubo menor até um focinho! Vai da imaginação de cada um, cortem, montem e divirtam-se! =)

Na Estrada…

Não é a questão de “gostar” de ser vagabundo. Acredito que minha mãe não teria orgulho de ver seu único filho homem ser um escroque, um andarilho pedinte pela vida. Também vivemos tempos bem diferentes daqueles em que vagabundos eram glamourizados em livros e filmes, com suas histórias de aventuras, de viagens clandestinas em trens por paisagens bucólicas, de mendicância pelos bairros burgueses das cidades grandes. Fora as suas próprias condutas morais, consigo, dentro de sua cabeça, um lugar que não pode fugir ou se esconder, então terá que enfrentar a vergonha, a humilhação, a desconfiança e a avareza das pessoas. E descobre aos poucos que quem mais ajuda o outro, que segue aquelas palavras religiosas de compaixão e caridade, são os pobres, os que na maioria das vezes não tem nem para si próprio, contudo repartem de bom coração aquela pouca comida guardada em marmitas de isopor.

Independe das escolhas, a instituição já engoliu o ser humano, é mais forte e brilha como um pote de ouro no fim do arco-íris. A ilusão de que todos poderão tocar aquele tesouro, possuir coisas, supondo que isso seja a razão do sucesso de alguns, fazem esse sistema encher sua barriga de sentimentos falsos, de pessoas que passam por cima das outras pelos bens que possuem, colocando o ser humano numa escala perto da barata, um ser rastejante e nojento, sem apreço nenhum de ninguém. Algo ambíguo, pois tanto um mendigo quanto um milionário podem cruzar olhares e por suas histórias, suas personalidades, descobrem que são da mesma espécie, sendo que a barata rica, simplesmente atropela a barata pobre e segue seu caminho cego pela materialidade das coisas.

A opção por não querer trabalhar na rotina e viver uma vida mais “leve”, sem as obrigações que foram impostas por essa sociedade, levam a tantos caminhos possíveis como para quem estudou e se formou advogado por exemplo. O problema é o preconceito e a falta de compaixão, em ouvir e crer nos eventos que seriam fantásticos demais, caso não pudessem ser comprovados. No meu exemplo era difícil fazer as pessoas entenderem minhas escolhas presentes e que eu já havia sido um professor “coxinha” na capital paulista. E as pessoas te olham perguntando “por que largou uma carreira teoricamente estável, uma mulher linda e amável, bens materiais que muitos batalham a vida para ter”, para se tornar um mendigo louco, um andarilho que fala sozinho e resmunga para os lados balançando a cabeça e os braços.

Muitos me vêem assim, outros como um cara que largou tudo e agora é “hippie” (em pleno século XXI, não tenho nem tempo pra isso, com todo respeito a esse movimento de contracultura), outros me vêem ainda como aquele que fui a quase 5 anos atrás, esse professor em uma grande faculdade, com valores que hoje para mim são deturpados. Eu seguia a massa como a maioria faz. De bom mesmo sobrou a vontade de trocar, de lecionar, de pesquisar e continuar aprendendo. Desde então não exerci uma profissão assinada pela constituição nacional. Gosto de ser artista, de produzir meu próprio trabalho, todavia detesto a pressão de ter que provar o tempo inteiro que sou bom nisso ou naquilo, competir o tempo inteiro e subir ao topo de um rank que é tão falso quanto o “feliz natal” nas noites de 24 de dezembro.

E apesar de não ter o glamour do passado, de tempos mais pesados e mais preconceituosos, ainda assim prefiro sair pra rua e curtir uma praia sem saber qual a aventura do dia, do que estar lá dentro daquele escritório trancado debaixo de um ar gelado como os olhares das pessoas, criando coisas que são inúteis, e que apoiam outras criações inuteis, fazendo todos acreditarem que necessitam daquilo para serem melhores e mais felizes. Sinto muito, não precisam não, apesar da escolha ser pessoal, uma coisa que aprendi nesses tempos de “vagabundagem”, é que independente de onde nascemos e como vivemos, iremos para o mesmo lugar do mendigo louco e teremos que dormir eternamente do lado de pessoas que você tem tanto preconceito hoje.

Alegria!

Você sempre ouve conselhos do tipo que “aprendemos mais com os erros”, “não há vida só de prazer”, “você tem que se acostumar a sofrer, ou a trabalhar”, coisas assim. É parecido quando você está absorto em um filme, perdido na ideia clássica de princípio, meio e fim. Sendo que no meio acontecem os ápices dos problemas, que em teoria irão se resolver no fim. A dificuldade de transportar isso para a vida real é que às vezes não dá tempo, não há sobra para o fim, e sei lá, não quero ter 85 anos e olhar pra trás e pensar, caralho, o que foi que fiz. O terapeuta deu duas batidinhas com a caneta em sua prancheta e Sara abaixou os olhos. Me desculpe, falo muito palavrão né. Aliás falo demais. Ele sorriu sincero. Você me procurou Sara, você tem algum motivo para estar aqui, precisando de algo, mesmo que seja só desabafar, certo? Ele perguntou mantendo o sorriso tranquilo.

Sem os pais a garota perdeu mais que fisicamente duas pessoas importantes para sua vida. Ela passou a não entender as necessidades impostas pela sociedade, por que os viu morrerem ser ter tido tempo de realizar seus sonhos, aqueles que eles viviam planejando fazer quando Sara estivesse pronta para enfrentar o mundo. Teve exemplos próximos de comportamentos bizarros, conversas falsas, fofocas entre parentes, apontamentos e afastamentos de indivíduos e amigos que ela julgava serem pessoas de bem. Infelizmente não eram. Cresceram os olhos pra cima dela, tiveram atitudes que a fizeram se sentir muito mal, e a terapia lhe dava força para continuar sua vida até estar pronta para partir em sua viagem.

Depois de uma hora e encerrada a sessão Sara tomou coragem e chamou seu terapeuta para um café. E apesar de ser anti ético segundo os moldes sociais, ela ainda iria discutir muito sobre esse assunto que virava e mexia, voltava a incomodá-la. Pelo fato de todos sermos farinha do mesmo saco, por que diabos é tão difícil viver sem competir, sem brigar, sem querer mais que o outro. Ele foi. Com algumas ressalvas. Sentaram em uma mesa do lado de fora em um lugar tipo uma varanda, e ali beberam e continuaram a conversar. A terapia sempre o seguia, mesmo que tentasse ter uma conversa informal sobre o tempo que fosse, acabava virando alguma neurose alheia.

Contudo a menina conseguiu quebrar o gelo e depois de um gole de um frappuccino docinho, não havia mais terapeuta e cliente, se tornaram conhecidos, e agora não era só mais uma questão moral, ultrapassaram todos os limites e se beijaram lentamente.

Nesse dia uma nova manifestação surgiu para Sara, depois de tantos monstros estranhos, exteriorizações horripilantes, algumas que ela nem conseguia distinguir, surgiu uma nova aberração. Ela ficou um tanto curiosa pois não ficou com medo ou nada assim, essa criatura que interagiu com Sara a fez ficar tranquila, rindo a toa, com boas lembranças daquela tarde. Alegria parecia com um coelhinho preto e um coração enorme.

Se fizer, faça com prazer…

Primeiro é o medo contra a crítica, ou não saber se vai conseguir lidar ou não com os críticos… Sempre têm mais deles por ai para criticarem aqueles que tão fazendo alguma coisa. Segundo é por que você tá querendo fazer o que tá querendo fazer, o que te motiva ao que vai fazer, e se vai te dar mais trabalho que prazer, dai então, numa boa, não sei não se não deve ser feito. O lance é criar algo que te dê alegria e que toda vez que for fazer, vai fazer por esse jubilo, e não por tornar-se uma obrigação para agradar x ou y, brasileiros ou americanos. As coisas geralmente dão certo se você sabe o que isso significa, se não for apenas mais um conceito social; então elas dão certo pra que você se sinta realizado, criando algo considerável que ajude a sua comunidade, ou seus comuns, aqueles próximos de alguma forma, seja confortando, acalentando, não importa, o que fizer faça com muito, muito prazer, e que isso se torne um deleite a outros também. Que seja tão bom e satisfatório como um sexo profundo feito a dois… ou mais.

Sotaques

Ela era um pouco mais alta que ele, aquele estilo de morena jambo com os cabelos bem pretos e a pele brilhante. Tinha os traços marcantes, apesar que não sei te pontuar quando uma beleza é diferente. Ela era uma menina nas suas curiosidades e receios, e um mulherão lindo que ali parecia saber de sua força sensual, no poder de seu sotaque espanhol. Tinham amigos em comum, a aproximação entre eles foi natural e de repente ficaram grudados a noite inteira, sentados primeiro lado a lado e depois de frente um para o outro naquela calçada. Se olhavam e se perdiam em suas conexões. Risadas acompanhadas de interesses iguais fizeram aquela noite durar mais, expressões em línguas diferentes, duvidas trocadas com carinho, e por ele poderia ter durado mais ainda. Apesar das amizades, de ser muito bom conhecer tantas pessoas diferentes, você vai encontrar pessoas que vão te hipnotizar pelo caminho. Parece que nada ao redor importa, nem o local onde estão, se tem pessoas ou não, nem se não falam o mesmo idioma, tudo desaparece, só importa aquela afinidade. O assunto, o jeito da pessoa, às vezes é na descontração e não o visual, às vezes é em como se responde uma pergunta com interesse. Tem gente que se torna gentil querendo atender a vontade alheia, tudo para estender aquele instante, fazê-lo mágico e único. O problema, se é que existia, era para ele. Você pode ser gente boa com qualquer pessoa, sempre haverá interesses. Mesmo que no início seja amizade, é a forma como se entrega à ocasião que nos diz se vamos nos relacionar além ou não. Os detalhes que são fornecidos conforme a sequência daquele papo descontraído seguia mostrou para os dois os limites, ele percebe que ela é comprometida e fica um tanto triste, pois aquela entrega, dos dois lados, havia muita energia, havia uma vontade comum. 7 bilhões de pessoas, tantos e tantos amores. Ele conhecia o jovem namorado dela, um cara gente boa que tocava um violão fino numa esquina de um supermercado no litoral. Os dois viajavam juntos havia 4 meses, saíram do país vizinho, e se aventuravam pelo Brasil. Depois de uma carona divertida para o carnaval carioca, a casualidade colocou-os no mesmo lugar. Ela lhe tocou a perna pedindo um trago do cigarro. Como fazemos pra trocar contatos? Ela tinha um sorriso lindo no rosto e disse pra ele lhe procurar em uma rede social dessas que viajantes usam muito. Foi um encontro bem rápido, ela estava acompanhada e de saída. E no momento de partir, ao se despedirem, se abraçaram tão forte que ele pode sentir a maciez de seus seios, o cheiro doce de seus cabelos e em seus ouvidos a expressão “un gustaço!”

Início ou Fim…

Nunca sei se é o impacto de não sabermos o que esperar, nem o que vai acontecer, e muito menos “conhecer” em noites como aquelas… Ela chegou trazendo algumas cervejas e nos convidou a tomar. A casa não tinha um tapete e todos se reuniram em volta daquela caixa de verdura que fazia vezes de mesa de centro. Acenderam cigarros e dois baseados. Ele estava recostado num pufe que dava de frente para o pequeno corredor de entrada do apartamento de sua amiga. Havia mais dois outros amigos e mais uma terceira amiga, éramos em seis então. Ela me viu e entrou tímida, com um leve sorriso e se apresentou. Deus que mulher bonita. Estava com seus vinte seis anos e tinha uma pele tão lisa e firme por sua magreza, e aquela cor entre branca e queimada de sol… Olhei para ela por muitas vezes durante a noite. Em alguns momentos senti o olhar dela sobre mim, ela sorria, dançava leve, provocando contudo sem ser vulgar. Não precisava, seu corpo esguio balançava feito cobra e meus olhos acompanhavam seus movimentos e eu também sorria para ela. Quando sabemos o que pode acontecer, senão apenas viver esses momentos e torcer para ter a sacada certa e levar essa gata linda para cama. É o que ela quer? Hoje me pergunto o tempo inteiro sobre os interesses das pessoas, pois é assim que nos conectamos, eu me interessei em conhecer aquela garota pelo seu visual, pelo seu sorriso, pelo seu papo, pela sua desenvoltura, por sua timidez não contida, por ter atitude de mudar por algo que nem sabe o que, e ela me disse, sem muita firmeza, que tinha um namorado… Aqui você pode pensar, começa ou termina um novo ciclo de amor?!

Encontros rápidos e casuais

Encontrei com essa garota cheia de tranças coloridas na cabeça num pequeno túnel onde um saxofonista fazia um belo som. Ela estava encostada na parede, olhava perdida a música, olhava perdida o tudo… Sentamos um do lado do outro após ela rodear um tempo. Visivelmente maluca, não entendi em que momento ela estava na terra ou em algum outro sistema planetário… E às vezes ela soltava um sorriso enorme, arregalava os olhos e a gente conseguia se entender. Disse não fumar maconha, mesmo assim com um jeitão de chapada, como uma criança ingênua, dessas que fazem amizades com qualquer um no parquinho, ficou ali conversando comigo, dizendo esperar por alguém, ou por alguma coisa que pudesse acontecer, mas sem se preocupar, simplesmente levando. Se fôssemos mais assim, teríamos mais sorrisos sinceros e amizades puras como as infantis, como o sorriso da garota de trancinhas coloridas.

O Manifesto de Sara

Ninguém sabe o que tem do outro lado, ninguém voltou para contar, alguém acredita 100% em psicografia, por que mesmo os espíritos não nos falam como é… Se é que falam… E dai me pergunto por que escolhem o que escolhem se não gostam de nada disso… Vamos pra onde e quando, só importa se o caminho for bom, tem que ser! Sara acabara de perder os pais, estava desorientada até encontrar sua tia Helen, ao qual muito se afeiçoara. Ela sentiu o celular vibrar, estava no metrô ouvindo música baixinho e olhando para o “nada”. A voz meio abobada, meio abafada, pedindo para ela ir ao Hospital Geral da Cidade. Mudou o percurso e chegou quase uma hora depois por conta do intenso trânsito. E ao vê-la a tia pôs-se a chorar. A menina então foi forçada a virar adulta. Agora era uma mulher aos 17 anos de idade.

Notas sobre tudo ser uma coisa só, assuntos que teoricamente são distintos e as pessoas não visualizam as conexões, e só depois de mais velhas, no limite do que chamamos de ter vivido, se percebe isso. Leio sobre pessoas idosas falarem em seus leitos de morte que deveriam ter vivido mais, no sentido de fazerem mais coisas que gostavam, de ficar mais com as pessoas que lhes faziam bem e vice-versa, sobre experimentar diferentes coisas por que depois, esse tempo que é ínfimo e passa super rápido, não se recupera, estamos indo sempre para “frente”, olhamos para frente, e esse tempo do agora, se torna ansiedade, doenças modernas pela falta de controle que temos, por não entender que uma hora vai acabar, essa passagem se chama assim por isso, por que simples, passa! Nesse momento em que fritava um ovo para comer com um pão já murcho, 3 dias após se sentir a pessoa mais sozinha do planeta, Sara também constatou-se minúscula, que aquele lugar era grande demais só para ela. Olhou para o sofá da sala onde curiosamente não havia uma TV, sem os pais falando como loucos, às vezes brigando, às vezes rindo ou conversando agitados enquanto tomavam um vinho, ela lembrou e lembrou e as lágrimas desceram quietinhas.

O quanto é difícil você querer separar seus sentimentos, suas personalidades, suas próprias expressões, daquilo que você acredita que você é… E no que você acredita… No entanto ela teve culhão, assustou-se em reconhecer seus muitos preconceitos, julgou-se antes de ir para o jogo da vida rotineira de Cidade Grande, entretanto não demonstrou sinais de fraqueza, não abaixou a guarda, decidiu se emancipar. Tia Helen não era uma pessoa muito preocupada, muito pelo contrário, vivia de bem com a vida e passava pelas adversidades com um jogo de cintura e um sorriso que a deixavam uma criatura linda. Você tem que entender a responsabilidade que tem agora Sara. Segue suas escolhas mas lembre que cada uma delas terá duas opções, no mínimo. Com tanta coisa pra se definir, sugiro que você tente sempre pensar com carinho para solucionar seus problemas. Apesar de fácil de ouvir, dominar os sentimentos nunca esteve nos planos de Sara. Ela gostava de emoções fortes, pediu de aniversário de 15 anos um salto de para-quedas e conseguiu convencer o pai de ir junto.

Por que não se pode viver só de emoções, por que demonstrar sentimentos é algo tão complicado… Queremos que robôs sintam, pensem e entendam por si próprios e nos gabamos de criar a inteligência artificial, mas não queremos mostrar nosso choro, nosso carinho, nosso desejo, viver sem medos, sem pudores, sem julgamentos… Por que não sei mais de amanhã, e ninguém me comprova que as coisas não são únicas, suas origens, nossas origens, de um grão de areia a uma barra de metal criada por seres humanos, que chamamos de não orgânico, de científico… Tudo está ligado, veio do mesmo lugar, junto com a prepotência e a hipocrisia. E voltará para o mesmo lugar até que se prove o contrário. E já que ninguém voltou pra falar, oi aqui do outro lado é bem legal… Do outro lado? Que lado, que direção, que confusão de sentimentos!!! Sara se aconselhou mais uma vez com sua tia Helen, e depois de muito conversarem ela chegou a duas conclusões. Primeiro venderia a casa e iria viajar. Segundo, para os preparativos iria procurar uma terapia, algo que pudesse desopilar sua cabeça cheia de ideias e pensamentos estranhos desde o incidente, com uma pessoa totalmente alheia a sua existência até então.

Uma vez a noite, pensou ter sentido uma presença em seu quarto. Ela havia trancado o quarto dos pais, depois de colocar todos os objetos pessoais em caixas, deixando apenas a mobília no lugar, e guardou algumas fotografias. Passara um mês, recebeu visitas de sua tia e algumas amigas do colégio. Iria sair pela primeira vez de casa por decisão própria. Mesmo que seja forçada, mesmo que eu só queira me enfiar debaixo das cobertas e me sufocar, preciso entender o que está acontecendo comigo. Nesses tempos dois monstros tomavam ou tentavam tomar forma de uma maneira mais constante para Sara. Tristeza e Medo eram feios, disformes, sinistros. Ela não conseguia entender suas visões, achava que estava delirando, porém conseguia sentir a presença como se eles fossem… pessoas. Aos 14 anos gostava de um garoto da escola. Ric era o apelido e ele já tinha aquele jeito canastrão de se vangloriar-se para as meninas. Sara e Ric estudaram na mesma sala e faziam aulas de laboratório de ciências juntos. Nunca soube explicar o ocorrido para sua mãe quando essa foi buscá-la após uma ligação do diretor, e teve que assinar um documento com uma suspensão de 3 dias para que sua filha pensasse no que havia feito e tentasse se controlar em momentos assim. O ciúmes foi tão intenso que se manifestou, ela não se lembra direito, contudo ela viu um tigre azul gigantesco ficar apoiado nas patas traseiras e soltar um tapão no rosto daquela menina nojenta que não me lembro o nome. Sua mãe procurou um psicólogo, mas não durou muito, ao ver que a mãe seguia caminho em seu carro após deixá-la na porta do consultório, Sara não entrava no prédio, ia para o outro lado da rua e seguia caminho até uma praça, onde deitada na grama chupava algumas balas e contava nuvens.

Sara…

É para escrever a história dessa garota de cabelos pretos e compridos. Não dá para negar o refluxo, como desandou essa semana para uma produtividade quase zero… já foi assim em outros lugares e você se deu muito bem, com pessoas que você nem conhecia, então por que agora seria tão diferente assim? Num era o tal futuro “agora” acontecendo e eu sendo feliz compartilhando felicidade alheia, todo mundo colorido como um arco-íris? Gosto disso cara, de verdade… como curto preto e branco também, e sei que períodos de secas são necessários para a valorização; alheia também!

Como várias espécies que se dão bem, infinitos exemplos entre os insetos, principalmente aqueles que o próprio homem já criou…

Tenho um pavor absurdo de baratas e nunca havia pensado nisso até hoje… ele olhou pra ela com expressão de perplexidade, os olhos arregalados não acreditavam que ela tinha alguma fobia sendo tão nova… todos já têm; têm pessoas mais novas que eu que já têm essa porra toda… Ele ri do jeito esculachado dela e gosta do que vê. Por que ela não é linda, e está longe de estar feia, e tem esse jeito todo largado que só quer perguntar e saber e experimentar sobre tudo e tudo mesmo, por que é jovem e blábláblá. Você já viveu isso, sabe o que estou falando então. Ao mesmo tempo irritante e cativante. Não tem como resistir e é um tipo de hipnose, aquilo te renova, te faz bem, não é uma questão de idade ou idolatrar a juventude, se você tem um mínimo de experiência sabe que vai poder tirar mais prazer das coisas que faz.

Sara havia procurado ajuda de um terapeuta ou alguma dessas coisas que misturam exoterismo, ou estilo de vida… não entendi direito, ela disse sem muita certeza sobre o que estava procurando, mas um tanto entusiasmada com a figura dele. A convicção da idade é uma coisa linda de se ver. Depois que passa por diversas, digamos aventuras em sua vida, mesmo que seja ser caixa de qualquer coisa, qualquer tipo de comércio aleatório que seja, ela tinha certeza que ele ficou interessado nela pelo próprio jeito dela mesmo. Malditos, ou seria melhor, benditos escorpianos. Não tenho nada contra nenhuma profissão, a pessoa escolhe o que quer fazer, mesmo quando tem gente que fala que a vida levou para outro caminho e ela não se permite ir além daquilo que já faz, e fará provavelmente por uns 40 anos. Sara olha pra ele incrédula, fica mais curiosa ainda. Uma situação que já ocorreu com ele diversas vezes, e com personagens variados. Ele sempre gostou da aventura, mas tinha suas opções como qualquer ser humano as tem. Sara calçava chinelos de dedo e usava um jeans surrado com um moleton cinza por cima, o capuz escondendo um pouco dos cabelos. Tinha um sorriso enorme. Desafiava-o tirando com um sarcasmo incrível, uma inteligência como se diz, aguçada de esperteza, não era só não saber, mas às vezes, sabia que estava atuando para ter aquilo que precisava ou que acreditava querer, como uma informação que seja.

Sara seduzia e gostava muito disso. Não era a mais popular nos tempos de escola, mas acabou. E tão rápido ela poderia estar numa sala de aula de alguma faculdade particular, inclusive exterior, poderia escolher qualquer outra coisa. Algo não muito comum, no entanto conseguida por conta de uma verba considerável fez com que ela tivesse emancipação aos 17 anos, agora tinha uma poupança bem gordona, e uma fome de lobo cadavérico, desses que não vê uma presa há dias, e está sedento, no caso dela, de conhecimento puro.

Divina seja a curiosidade humana, a garota que ia a terapia uma vez ao mês, no terceiro encontro sugeriu que devessem ter mais tempo juntos, se quiserem experimentar algo juntos, criarem algo juntos, serem algo juntos.

Sara contou para ele de seu problema. Depois que perdeu os pais no acidente, seus sentimentos se tornaram mais fortes, eles estavam se manifestando fisicamente. E ela podia interagir com esses seus sentimentos. Não tinha controle, e nem sabia se queria ter, no começo assustada por visualizar a coisa toda, e com o tempo o convívio deixando fluir seus monstros interiores, ela conheceu outras aberrações internas e deixou todas pularem pra fora de seu ser. A fúria com que o ciúmes dela veio quando ele comentou de sua ex namorada, mostrou uma explosão descontrolada que podia ferir fisicamente pessoas.

Sua expressão se transformou na hora, e algo absurdo e forte foi dito e atirado por ela em cima dele que levou um susto danado mas sabia, ou pelo menos acreditava nisso, que entendia o ciúmes dela. Claro que cada pessoa sente suas coisas do seu modo, nem mais nem menos que os outros. Mas por ser 20 anos mais velho e trabalhar ouvindo os problemas das pessoas, ele constatou que ela estava tendo o reflexo de que ele era um cara legal, confundindo seus sentimentos, pois ele não julgava, não criticava, não falava nada, apenas ouvia. Sara não sabia que isso era possível e se deixou levar, o monstro da paixão domina bem rápido, pode não ser furioso como o do ciúmes, todavia era tão perigoso quanto.

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