O Manifesto de Sara

Ninguém sabe o que tem do outro lado, ninguém voltou para contar, alguém acredita 100% em psicografia, por que mesmo os espíritos não nos falam como é… Se é que falam… E dai me pergunto por que escolhem o que escolhem se não gostam de nada disso… Vamos pra onde e quando, só importa se o caminho for bom, tem que ser! Sara acabara de perder os pais, estava desorientada até encontrar sua tia Helen, ao qual muito se afeiçoara. Ela sentiu o celular vibrar, estava no metrô ouvindo música baixinho e olhando para o “nada”. A voz meio abobada, meio abafada, pedindo para ela ir ao Hospital Geral da Cidade. Mudou o percurso e chegou quase uma hora depois por conta do intenso trânsito. E ao vê-la a tia pôs-se a chorar. A menina então foi forçada a virar adulta. Agora era uma mulher aos 17 anos de idade.

Notas sobre tudo ser uma coisa só, assuntos que teoricamente são distintos e as pessoas não visualizam as conexões, e só depois de mais velhas, no limite do que chamamos de ter vivido, se percebe isso. Leio sobre pessoas idosas falarem em seus leitos de morte que deveriam ter vivido mais, no sentido de fazerem mais coisas que gostavam, de ficar mais com as pessoas que lhes faziam bem e vice-versa, sobre experimentar diferentes coisas por que depois, esse tempo que é ínfimo e passa super rápido, não se recupera, estamos indo sempre para “frente”, olhamos para frente, e esse tempo do agora, se torna ansiedade, doenças modernas pela falta de controle que temos, por não entender que uma hora vai acabar, essa passagem se chama assim por isso, por que simples, passa! Nesse momento em que fritava um ovo para comer com um pão já murcho, 3 dias após se sentir a pessoa mais sozinha do planeta, Sara também constatou-se minúscula, que aquele lugar era grande demais só para ela. Olhou para o sofá da sala onde curiosamente não havia uma TV, sem os pais falando como loucos, às vezes brigando, às vezes rindo ou conversando agitados enquanto tomavam um vinho, ela lembrou e lembrou e as lágrimas desceram quietinhas.

O quanto é difícil você querer separar seus sentimentos, suas personalidades, suas próprias expressões, daquilo que você acredita que você é… E no que você acredita… No entanto ela teve culhão, assustou-se em reconhecer seus muitos preconceitos, julgou-se antes de ir para o jogo da vida rotineira de Cidade Grande, entretanto não demonstrou sinais de fraqueza, não abaixou a guarda, decidiu se emancipar. Tia Helen não era uma pessoa muito preocupada, muito pelo contrário, vivia de bem com a vida e passava pelas adversidades com um jogo de cintura e um sorriso que a deixavam uma criatura linda. Você tem que entender a responsabilidade que tem agora Sara. Segue suas escolhas mas lembre que cada uma delas terá duas opções, no mínimo. Com tanta coisa pra se definir, sugiro que você tente sempre pensar com carinho para solucionar seus problemas. Apesar de fácil de ouvir, dominar os sentimentos nunca esteve nos planos de Sara. Ela gostava de emoções fortes, pediu de aniversário de 15 anos um salto de para-quedas e conseguiu convencer o pai de ir junto.

Por que não se pode viver só de emoções, por que demonstrar sentimentos é algo tão complicado… Queremos que robôs sintam, pensem e entendam por si próprios e nos gabamos de criar a inteligência artificial, mas não queremos mostrar nosso choro, nosso carinho, nosso desejo, viver sem medos, sem pudores, sem julgamentos… Por que não sei mais de amanhã, e ninguém me comprova que as coisas não são únicas, suas origens, nossas origens, de um grão de areia a uma barra de metal criada por seres humanos, que chamamos de não orgânico, de científico… Tudo está ligado, veio do mesmo lugar, junto com a prepotência e a hipocrisia. E voltará para o mesmo lugar até que se prove o contrário. E já que ninguém voltou pra falar, oi aqui do outro lado é bem legal… Do outro lado? Que lado, que direção, que confusão de sentimentos!!! Sara se aconselhou mais uma vez com sua tia Helen, e depois de muito conversarem ela chegou a duas conclusões. Primeiro venderia a casa e iria viajar. Segundo, para os preparativos iria procurar uma terapia, algo que pudesse desopilar sua cabeça cheia de ideias e pensamentos estranhos desde o incidente, com uma pessoa totalmente alheia a sua existência até então.

Uma vez a noite, pensou ter sentido uma presença em seu quarto. Ela havia trancado o quarto dos pais, depois de colocar todos os objetos pessoais em caixas, deixando apenas a mobília no lugar, e guardou algumas fotografias. Passara um mês, recebeu visitas de sua tia e algumas amigas do colégio. Iria sair pela primeira vez de casa por decisão própria. Mesmo que seja forçada, mesmo que eu só queira me enfiar debaixo das cobertas e me sufocar, preciso entender o que está acontecendo comigo. Nesses tempos dois monstros tomavam ou tentavam tomar forma de uma maneira mais constante para Sara. Tristeza e Medo eram feios, disformes, sinistros. Ela não conseguia entender suas visões, achava que estava delirando, porém conseguia sentir a presença como se eles fossem… pessoas. Aos 14 anos gostava de um garoto da escola. Ric era o apelido e ele já tinha aquele jeito canastrão de se vangloriar-se para as meninas. Sara e Ric estudaram na mesma sala e faziam aulas de laboratório de ciências juntos. Nunca soube explicar o ocorrido para sua mãe quando essa foi buscá-la após uma ligação do diretor, e teve que assinar um documento com uma suspensão de 3 dias para que sua filha pensasse no que havia feito e tentasse se controlar em momentos assim. O ciúmes foi tão intenso que se manifestou, ela não se lembra direito, contudo ela viu um tigre azul gigantesco ficar apoiado nas patas traseiras e soltar um tapão no rosto daquela menina nojenta que não me lembro o nome. Sua mãe procurou um psicólogo, mas não durou muito, ao ver que a mãe seguia caminho em seu carro após deixá-la na porta do consultório, Sara não entrava no prédio, ia para o outro lado da rua e seguia caminho até uma praça, onde deitada na grama chupava algumas balas e contava nuvens.

Sara…

É para escrever a história dessa garota de cabelos pretos e compridos. Não dá para negar o refluxo, como desandou essa semana para uma produtividade quase zero… já foi assim em outros lugares e você se deu muito bem, com pessoas que você nem conhecia, então por que agora seria tão diferente assim? Num era o tal futuro “agora” acontecendo e eu sendo feliz compartilhando felicidade alheia, todo mundo colorido como um arco-íris? Gosto disso cara, de verdade… como curto preto e branco também, e sei que períodos de secas são necessários para a valorização; alheia também!

Como várias espécies que se dão bem, infinitos exemplos entre os insetos, principalmente aqueles que o próprio homem já criou…

Tenho um pavor absurdo de baratas e nunca havia pensado nisso até hoje… ele olhou pra ela com expressão de perplexidade, os olhos arregalados não acreditavam que ela tinha alguma fobia sendo tão nova… todos já têm; têm pessoas mais novas que eu que já têm essa porra toda… Ele ri do jeito esculachado dela e gosta do que vê. Por que ela não é linda, e está longe de estar feia, e tem esse jeito todo largado que só quer perguntar e saber e experimentar sobre tudo e tudo mesmo, por que é jovem e blábláblá. Você já viveu isso, sabe o que estou falando então. Ao mesmo tempo irritante e cativante. Não tem como resistir e é um tipo de hipnose, aquilo te renova, te faz bem, não é uma questão de idade ou idolatrar a juventude, se você tem um mínimo de experiência sabe que vai poder tirar mais prazer das coisas que faz.

Sara havia procurado ajuda de um terapeuta ou alguma dessas coisas que misturam exoterismo, ou estilo de vida… não entendi direito, ela disse sem muita certeza sobre o que estava procurando, mas um tanto entusiasmada com a figura dele. A convicção da idade é uma coisa linda de se ver. Depois que passa por diversas, digamos aventuras em sua vida, mesmo que seja ser caixa de qualquer coisa, qualquer tipo de comércio aleatório que seja, ela tinha certeza que ele ficou interessado nela pelo próprio jeito dela mesmo. Malditos, ou seria melhor, benditos escorpianos. Não tenho nada contra nenhuma profissão, a pessoa escolhe o que quer fazer, mesmo quando tem gente que fala que a vida levou para outro caminho e ela não se permite ir além daquilo que já faz, e fará provavelmente por uns 40 anos. Sara olha pra ele incrédula, fica mais curiosa ainda. Uma situação que já ocorreu com ele diversas vezes, e com personagens variados. Ele sempre gostou da aventura, mas tinha suas opções como qualquer ser humano as tem. Sara calçava chinelos de dedo e usava um jeans surrado com um moleton cinza por cima, o capuz escondendo um pouco dos cabelos. Tinha um sorriso enorme. Desafiava-o tirando com um sarcasmo incrível, uma inteligência como se diz, aguçada de esperteza, não era só não saber, mas às vezes, sabia que estava atuando para ter aquilo que precisava ou que acreditava querer, como uma informação que seja.

Sara seduzia e gostava muito disso. Não era a mais popular nos tempos de escola, mas acabou. E tão rápido ela poderia estar numa sala de aula de alguma faculdade particular, inclusive exterior, poderia escolher qualquer outra coisa. Algo não muito comum, no entanto conseguida por conta de uma verba considerável fez com que ela tivesse emancipação aos 17 anos, agora tinha uma poupança bem gordona, e uma fome de lobo cadavérico, desses que não vê uma presa há dias, e está sedento, no caso dela, de conhecimento puro.

Divina seja a curiosidade humana, a garota que ia a terapia uma vez ao mês, no terceiro encontro sugeriu que devessem ter mais tempo juntos, se quiserem experimentar algo juntos, criarem algo juntos, serem algo juntos.

Sara contou para ele de seu problema. Depois que perdeu os pais no acidente, seus sentimentos se tornaram mais fortes, eles estavam se manifestando fisicamente. E ela podia interagir com esses seus sentimentos. Não tinha controle, e nem sabia se queria ter, no começo assustada por visualizar a coisa toda, e com o tempo o convívio deixando fluir seus monstros interiores, ela conheceu outras aberrações internas e deixou todas pularem pra fora de seu ser. A fúria com que o ciúmes dela veio quando ele comentou de sua ex namorada, mostrou uma explosão descontrolada que podia ferir fisicamente pessoas.

Sua expressão se transformou na hora, e algo absurdo e forte foi dito e atirado por ela em cima dele que levou um susto danado mas sabia, ou pelo menos acreditava nisso, que entendia o ciúmes dela. Claro que cada pessoa sente suas coisas do seu modo, nem mais nem menos que os outros. Mas por ser 20 anos mais velho e trabalhar ouvindo os problemas das pessoas, ele constatou que ela estava tendo o reflexo de que ele era um cara legal, confundindo seus sentimentos, pois ele não julgava, não criticava, não falava nada, apenas ouvia. Sara não sabia que isso era possível e se deixou levar, o monstro da paixão domina bem rápido, pode não ser furioso como o do ciúmes, todavia era tão perigoso quanto.

Fox “Mãos Ligeiras” está apaixonado!

A Taverna Curta ficava as margens de uma estrada de mão simples. Por ali recebiam em sua maioria viajantes, andarilhos, bárbaros e mendigos. Tinham apenas dois quartos com mobília básica para recolher até 8 desses aventureiros. E no salão havia alguns pequenos objetos decorativos e 4 mesas com um belo tronco de madeira ao centro. As velas estavam dependuradas e ficavam acesas o tempo todo, uma grossa camada de cera derretida formava desenhos de rostos bizarros, que em meio a bebedeira poderiam ganhar vida para algum transeunte louco. As pessoas do lugar se entreolharam confusas com o que acabaram de presenciar. Foi quando um sujeito com o focinho dobrado como um porco coçou no queixo a barba rala e gritou erguendo a toalha branca com manchas de gordura:

_ Peguem ele seus molengas! Peguem esse ladrão!

A confusão foi grande. Copos, canecas e bancos voaram enquanto alguns bárbaros se reuniam do lado de fora olhando em todas as direções, inclusive para cima, para a copa das árvores. Não havia nenhum movimento e não se ouvia nada. Nada mesmo. Esperaram por alguns minutos e um deles reagiu.

_ Ele fugiu por cima como falou para a gente que fez ousando atacar a princesa!

McFort & Bravoalfa levantou sua espada bradando bem alto. Ele era um homem adulto em toda sua virilidade. De uma barba ruiva pendiam duas tranças que combinavam com a longa madeixa que balançava nas costas.

_ Vamos te encontrar ladrão!

E os outros acompanharam fazendo uivos.

Por cima dos mais altos galhos, o intrépido aventureiro estava escondido nas folhagens. Ele tentava tranquilizar-se, pois sabia que sua ousadia dessa vez passara dos limites. E mesmo os homens que não gostam de seus governantes, são homens de bem e não toleram uma ameaça a uma madame. Alguns dos sujeitos tentavam subir pelos troncos mas não tinham agilidade suficiente e seu peso não ajudava em galhos mais finos. O ladrão estava fora de alcance por enquanto.

Suas roupas estavam suadas e ele podia sentir seu peito acelerar quando o grupo passou direto pela árvore em que se empoleirava. Fox “Mãos Ligeiras” esfregou um lenço na testa. Equilibrava-se na ponta dos pés encostando-se a um galho para firmar o corpo. Esperou por muito tempo até se sentir seguro e colocar o pescoço esticado para ver se a estrada abaixo era propicia para ele descer da árvore. Não havia mais nenhum dos bárbaros e ouvia ao longe o ruído de vozes na taverna. Não havia música, o que significava que poderiam os aldeões, camponeses, bárbaros, mercenários, e quem mais se atrevesse a por os pés naquele lugar de luxuria e festejos, estarem reunidos para fazer uma busca atrás do ladrão. Pensando nisso desceu bem devagar e se esgueirou por entre outras margeando a estrada seguindo caminho há leste para se afastar o máximo da origem daqueles sons em que seus donos cortariam seu pescoço sem seu consentimento.

Reteve-se por tempo demais e já era de noite quando começou a caminhar um pouco mais tranquilo até seu casebre perdido no meio daquela floresta. Ele havia feito do lugar seu lar desde que decidiu ser uma pessoa livre sem alianças ou amigos. Só lhe interessava as moedas de ouro e o que ele poderia comprar para seu conforto e suas aventuras. O jovem adulto era ambicioso e gostava de viver os romances para isso. Após levantar as paredes com barro e folhagens, fez um teto de galhos trançados e folhas para se proteger da chuva. Era tudo muito simples, não havia móveis, tapetes, nada, nenhuma cama ou panela. No entanto em um dos cantos poderíamos ver três baús grandes, alguns sacos rechonchudos e duas taças de ouro puro. Ele acendeu a vela que estava num dos cantos e viu a sombra de um rato em sua parede. Como vou lhe pagar essa aposta primo? Não somos primos, e eu te disse que seria fácil roubar um beijo daquela princesa. Seu séquito é limitado e comandado por um homem vaidoso demais para cuidar das pessoas ao seu redor. Eles cruzaram olhares e Rato conseguiu ver nos olhos de Fox algo incomum. Eu acho que você se apaixonou por ela cara! Ficou tanto tempo planejando esse ato que depois de um período acreditou que gostava da Senhorita Princesa Macia!

Buk

Quando Buk percebeu estava com um sujeito um pouco mais alto e encorpado ao seu lado, vestindo em sua roupa as cores da Nação. Em uma galera clássica, ele navegava junto ao Principal Comando da Nação, os especialistas, os melhores dos melhores marinheiros, militares, caçadores, claro, esses devidamente pagos a parte. Mesmo assim ficou pensando nessa situação, desde bem pequeno, quando estava na banheira fingindo ser um barco que afundava pois a água estava a sua volta, ele se imaginava vestindo as cores dos piratas.

Acho que é uma loucura isso que estou fazendo, sou muito jovem, já vivi essa situação uma vez e essas cicatrizes todas me alertam do como podemos morrer no dia de hoje! Estava com os olhos arregalados e havia umas boas duas horas que estavam ali e não trocaram uma só palavra. O oficial ao seu lado se permitiu um gesto delicado e tentou confortar o jovem Buk colocando uma mão no seu ombro. O garoto não reagiu, ficou quieto forçando a vista, sabendo que a qualquer momento poderia ocorrer um ataque. Já navegavam há dias para dentro do oceano, já haviam cruzado o Recife das Baleias e a pequena Ilha de Cristais de Aquário. Na primeira vez, quando um camarada baixinho e calvo com um lenço amarrado de lado na cabeça e com um protuberante dente superior sendo palitado por grossos dedos peludos chegou na porta de sua casa com um papel amassado. Parecia um “anão” de um livro de fantasia. Mas era real, Buk não conteve o sorriso e abraçou e dançou com esse sujeito que até que era gente boa. Deu a notícia e seguiu seu caminho sem mais delongas.

O garoto virou grumete e estava na gávea de um belo barco de madeira e ferro fundido. Nos primeiros dias soube se situar muito bem, olhando para todos os lados e anotando num caderno sua posição em relação ao que via no horizonte. Tendo o cuidado de anotar detalhes e características, Buk era um sujeito bastante entusiasmado sobre as coisas que iria ver, praticamente tudo seria novidade. Viajaram por dias até o ataque das bruxas-sereias. Ele tem certeza que eram mais de uma pois ouviu gritos assustadores o tempo inteiro, e não eram apenas dos marujos. Agora pela segunda vez, seu corpo alertava mais forte, a cicatriz da barriga repuxava curiosa e ele se encurvava para suportar a dor.

Acho que fui envenenado senhor. Desde que fui resgatado nunca me recuperei totalmente. Sinto uma fome danada, e um desejo… Parou de falar quando avistou algo pela luneta. Lá senhor! O Oficial pegou o objeto e levou ao olho direito seguindo o dedo apontado de Buk para o além mar. Alguns segundos foi o suficiente para o som chegar aos ouvidos. A melodia era linda, não sei nem explicar. Alguns falariam que é música élfica, eu acredito que é música da natureza, o que não deixa de ser élfica também! Paralisado de horror e completamente entregue aos prazeres daquele som, seu corpo amoleceu e Buk entendeu que seria naquele momento o ataque.

Quantos serão os amores…

Que idade você tem? 29… Sério? Ela abriu um sorriso lindo e aparentou mais linda do que já era. Ficou admirando-a sem falar nada. Reparou nos brilhos em seus olhos, a covinha apenas do lado esquerdo, logo abaixo de uma pintinha. Ela piscou cílios enormes e tudo que estava em volta, tudo o que até então fazia algum sentido, todos os sentimentos, tudo ao mesmo tempo e agora, explodiu em milhões de borboletas em sua barriga. Sentiu o estômago contrair e não pode acreditar quando ela começou a levantar a camiseta branca. Era um tecido muito leve que deixou aquela cena mais sensual do que já estava. Uma mulher linda com os braços tatuados e uma doçura para se mover. E com uma atitude, daquelas que você levanta e bate palmas, pela pessoa assumir suas vontades e ser quem está afim de ser.

Fizeram sexo, primeiro com delicadeza, lento e leve. Beijos colados, corpos seguros, suores misturados. Segundo com uma selvageria que podiam ver as paredes tremendo e o ar ficando denso que quase dava para tocá-lo. Preciso ir embora, ela falou com a voz tão baixa que ele não entendeu se ela não tinha vontade de ir. Nunca mais iriam se ver, nunca mais juras de amor, nunca mais nada entre eles, a não ser a lembrança do dia mais perfeito entre os dois. Eu vou te ligar, ele sabia que ela estava mentindo, mesmo assim deu ouvidos, quis ter essa esperança. Ela vestiu a calcinha, a calça jeans por cima, sapatos preto de salto, a camiseta quase transparente deixando o umbigo sem foco. Posso te preparar um café, antes de você ir, sei que tem compromissos, mas… Ela colocou o dedo indicador nos lábios dele, e tinha em sua boca um baton vermelho que marcou de leve sua testa. Ele viu aquele brilho nos olhos pela última vez, o cabelo escorrido de tão liso, pretinho. Quando ela fechou a porta, tudo quebrou, tudo escureceu, e ele sabia que viveria mais vezes mais amores eternos e doloridos como aquele. E agradeceu a vida por isso.

Uma Aventura de RPG…

Os olhares deles se cruzaram e tudo que se passou em seguida foi tão rápido que ela não teve tempo de reagir. Ele roubou-lhe um beijo em sua boca macia e pulou de sua carruagem fugindo pelas árvores.

“Rápido seus idiotas!” gritava do lado de fora o comandante da vigilância, Sir. Althus Baishignon. Dois guardas corriam de um lado para o outro tentando ver para onde o suspeito teria fugido e se deixara alguma pista. E mais um corria na mesma direção em que o suspeito, só que a pé. Claro que ele não o alcançou. O sujeito em questão, além de mais esperto era mais rápido também. E pulando feito um macaco prego, sumiu por entre as árvores. Foi logo que os guardas pararam de perseguir o escroque, o superior comandante estava revoltado falando muito alto, quase gritando com seus comandados. E a garota estava aturdida. Assustada é claro, mas tinha uma leveza em seus olhos e um leve sorriso em seus lábios. Dentro da carruagem uma senhora que parecia ser a ama, ou sua tutora, chorava desenfreadamente pelo susto. Do seu lado, o cocheiro tentava consolá-la abanando-a com um lenço fino. O aspecto dos dois era clássico. Ele era alto e magro com o rosto fino marcado pelos ossos. Poderia muito bem ser um agente funerário. Já a ama, tinha em seu rosto o aspecto saudável de faces rosadas e um enorme corpanzil abaixo do que parecia ser uma dobra no pescoço. A garota então pôs a cabeça pela janela e procurou pelo seu ousado malfeitor. Forçou os olhos mas nada viu, então virou a cabeça em direção ao superior comandante.

“Vamos embora, por favor, minha ama não está se sentindo muito bem.” Ela disse calmamente.

“E a senhorita, como está se sentindo?” Ele alisou os bigodes arruivados.

Ela voltou com a cabeça para dentro da carruagem ignorando os olhares insinuantes dele. O cocheiro assumiu seu posto e então seguiram caminho. Os soldados se reorganizaram, alguns a pé, outros em cavalos, cercando a carruagem pela frente, pelos flancos e pelas costas. Um dos soldados observou Sir. Althus por um momento. Seu comandante estava sobre um corcel branco muito forte e vistoso. Ele rodeou por alguns segundos uns metros a frente. Então ele fez o mesmo, só que mais para o sul. Pode observar bem ao alto um movimento diferente nas folhagens das árvores. Ficou pensando se aquele crápula não estaria escondido naquela imensidão de telhado verde. Então puxou as rédeas e fez seu cavalo seguir o roteiro de defesa exigido com execução perfeita e sincrônica como as das cavalarias romanas dos contos humanos.

Todo o lugar então ficou em silêncio profundo. Até as velas em seus candelabros dançavam lentamente criando uma leve penumbra amarelada no ar.

_ Isso tudo aconteceu agora pouco, a cerca de uns trinta minutos mais ou menos.

_ E como você sabe disso tudo, hein rapaz?

Perguntou um sujeito de ombros largos, barbas crespas e bochechas gordas que palitava os dentes no canto da boca. Sua face lembrava a de um pirata bem malvado. Aquele sujeito magrelo não havia calado a boca desde então, contando sua história delirante enquanto bebia uma cerveja gelada e comia uma salsicha apimentada. Ele jogou dois sacos de flanela para cima e pulou do banco onde estava sentado perto sobre o balcão. Pegou seus pertences, tirou uma moeda de ouro e deu uma piscada para o gordão:

_ Eu sou o ladrão!

Seria um tesouro…

Buk Quatro Olhos subiu pelo mastro com uma boa agilidade. Se agarrava pelas cordas e usava seu peso pra controlar o impulso. O jovem acabara de completar seu 16° aniversário e pôde escolher entre ir com os mais fortes e corajosos tentar capturar as bruxas-sereias ou ficar no campo, com outro tipo de afazeres. Não pensou muito, desde que nasceu e que se lembra adorava estar com a luneta e subir nas árvores para brincar de pirata e avistar a próxima ilha do tesouro. Gostava de contar histórias, coisa que vinha herdada de seus dois tios e de uma avó que fazia segundo ele, o melhor pão de queijo de todos os tempos.

Agora usava o objeto de longo alcance para tentar achar algo além daquele infinito horizonte azul. Muito azul. Sabe qual é a sensação de ser o primeiro a ver algo naquela linha fininha lá ao longe, quase não se diferencia um navio petroleiro de uma ilha. É como se o tempo passasse mais lento, que você vê por fotogramas. Mas não pode piscar, ele dizia entre risadas, senão vai perder o movimento e quando assustar ele estará fora de alcance de visão.

O comandante da Frota Nacional andava de um lado para outro naquele pequeno salão de oficiais, onde o jovem grumete Buk estava sendo digamos, entrevistado por ele e mais dois outros oficiais de alto escalão, sendo um deles do Principal Comando da Nação. Puxava seu fino bigode que adornava com o cavanhaque pontudo, e soltava uns Hmms em meio as perguntas. Você disse que aconteceu alguma coisa, você se lembrou de algo não foi meu pequeno menino? A forma como as palavras chegaram aos ouvidos de Buk fez ele gelar o sangue e sentir seus poucos pelos eriçarem. Sabia que não podia mentir, ele realmente se lembrou daquela figura apavorante, todavia muito sedutora, que com um olhar, deixou ele paralisado acreditando que era amor.

A 3 semanas ele foi pela primeira vez para dentro de um barco. Sonhou dia e noite com esse momento e se preparou muito para subir no mastro com estilo para que os oficiais e demais tripulantes vissem que não era um marujo bobo que havia acabado de chegar pro serviço. Ele fora introduzido com um discurso breve e algumas piadinhas sobre a idade e seu corpo magrelo, mesmo assim de boa estatura para sua idade. Não jogava basquete no time da escola por que ao invés de estudar numa sala de aula preferiu estudar ao ar livre, com outros marujos, velhos rabugentos que contavam histórias verdadeiras e mentiras deslavadas, que no fim das contas eram boas lições para aquele que tinha juízo de entender o que estava nas entrelinhas daqueles contos.

Relatou sua história e sobre o terrível ataque que sofreram. Algo tinha que ter avisado as bruxas-sereias que estávamos ali, por que foi tão de repente, eu tinha acabado de descer do mastro, não havia visto nada por 45 longos minutos, e decidi fazer uma boquinha, afinal já ouviu sobre escorbuto, não é mole não, aquilo mata! Foi quando sentiu a pancada de um pedaço de madeira que havia voado do convés. Ele desmaiou no mesmo minuto, e ao voltar ainda ouviu parte da confusão. Tentou se levantar e cambaleando foi até a escada que dava acesso a proa. Viu tudo revirado no chão, as especiarias que estavam estocadas, alguns sacos de frutas, barris de água e cerveja, varas de pesca partidas em vários pedacinhos e linhas e cordas, tudo embolado e enrolado. A bruxa sereia saiu de trás de um pequeno balcão de estoque. Ela me viu e se atirou em mim tão rápido que não pude reagir. Senti as unhas rasgarem minha barriga e só consegui gemer de dor. Quando nos encaramos, juro senhor, eu senti um nada tão… Ele olhou para os homens com a boca aberta mas não saia nenhuma palavra. Tinha ficado mudo por que era essa a sensação, sem forças contra algo que não entende. Sei que ela viu o meu medo, sentiu aquilo. E me jogou para o outro lado, bati minha cabeça e desacordei até me encontrarem naquele momento. Creio eu senhor, que se não fossem por vocês, eu estaria morto.

O comandante e os oficiais trocaram olhares e ele soltou um leve sorriso amarelado para o garoto. Qual o seu nome mesmo, perguntou já dando outra volta em seu corpo para continuar sua caminhada pelo pequeno aposento. Eles me chamam de Buk Quatro Olhos por causa dos meus óculos senhor, eu aceito por que sei que sou novo ainda. mas quando eu crescer, terei o respeito deles, tenho certeza que um dia trarei um rabo de sereia, não, de uma bruxa-sereia para mostrar que eu tenho valor. Apesar da aparência frangalha ele possuía valentia em seus olhos e gente determinada costuma viver uma vida de mais emoções fortes. O risco daquelas jornadas que ele tinha escolhido já lhe mostrara no primeiro encontro como você deve estar atento para lidar com uma situação tão comprometedora. A vida de todos foi ceifada, fora você, meu garoto sortudo, ninguém mais viveu para contar o que viu. Vamos, desembuche logo. Quando acordei não a vi mais, mas antes do meu ataque, ela segurava um pequeno baú cravado de pedras e um diamante do tamanho de meu punho fechado com uma caveira na frente, para abrir com uma chave, creio eu de aparência antiga. Você não precisa opinar rapaz, só nos conte o que aconteceu e damos por satisfeito. Um dos oficiais cortou a forma prolixa com que Buk desenvolvia seu modo de contar histórias, em certo ponto, afinado dando tempo para rirmos ou sentirmos curiosidade. Mas se enrolar muito, fica chato!

Ela jogou o baú e me atacou, logo depois desmaiei. Não sei se pegou o baú. Os homens se olharam e um deles saiu as pressas. Voltou em seguida com mais um outro oficial que foi quem achou Buk desmaiado. Vocês procuraram ou viram algum objeto que chamava a atenção, pelo brilho que tinha. Os homens trocaram olhares ansiosos e o oficial respondeu que ele e seus homens não haviam encontrado nada.

História Clássica…

Paul saiu de casa usando uma calça social cinza e uma camisa de mangas longas e botões. Atravessou a primeira rua e na esquina seguinte encontrou com Marco que usava uma calça jeans surrada e uma camisa pólo cor de rosa. Os dois caminharam dois quarteirões acima até chegarem ao cruzamento entre as ruas Foi Aqui e Esteve Ali, e dobraram a direita para encontrarem com Tom. Esse usava uma calça social risca de giz e um paletó sobre uma camisa branca de botões. Encontraram Mike em uma praça, o mais baixo entre eles estava usando uma máscara do ex-presidente Lula, roupas pretas e carregava uma sacola nas mãos. Andaram mais 3 quarteirões até encontrarem com Sandra, que estava belíssima em uma saia pouco acima do joelho de cor vermelha e uma camisa de seda ajustada na cintura por um fino cinto de couro. Os cinco caminhavam tranquilos, não falavam muito entre si e um deles apertou os olhos para avistar numa pequena praça que mais parecia uma rotatória um sujeito comprido, que usava calças tão compridas quanto suas pernas, mas com um tronco pequenino dentro daquela camiseta com estampa do escudo do Capitão América. Alcançaram João com seus óculos espessos e seguiram a caminhada por mais alguns minutos. Sempre assim, pessoas encontrando pessoas, que encontram mais pessoas, e entre elas se existe ou não uma interação, não sabemos ao certo. E o que elas estão fazendo, ou que irão fazer, também não temos nenhuma ideia. No entanto acredito que é para resolver algum problema, alguma situação complicada, por que pode ser loucura, a forma clássica de se escrever cinema, com princípio, meio e fim, sendo que no meio tem o ápice, o problema em sua maior personificação, caminhando as vezes lento para um fim que geralmente é feliz. Como ondas, que vem de tempos em tempos e enche as marés, trazendo muitas histórias, e de vez em quando vazias, sem nada, um final insonso, como qualquer encontro que as pessoas têm somente para resolverem seus problemas.

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