Do pó à arte

É sobre as experiências humanas de relacionamentos entre pessoas que nasceram em lugares diferentes, e como suas culturas são fortes. Outro ponto delicado é que independe de onde nasça, existe a sua personalidade para afetar o ambiente também. Quando você decide por você, o que você vai fazer, como vai fazer, você pensa realmente em como é o futuro? Você planeja anos e anos, e cumpre roboticamente cada meta? Em um pensamento que consideram exato e científico talvez, no entanto quando se trata de  arte, quanto mais solto, mais profundo, mais sentido, melhor será… O seu dia afeta literalmente em como vai fazer sua obra, lembre-se disso, ele ouviu humildemente e agora passava com o máximo de cuidado possível para que fosse entendido para outros, que não é nenhum jogo ou competição, é de boa, pra ser sempre de boa. Tudo para todos, o planeta permite isso numa boa. Não importa a sua escolha, seja verdadeiro consigo!

E na real, isso é muito bom, sair soltando as ideias e estimular para concretizar… Um porque escrever esse livro e por que suas histórias seriam boas pra isso mesmo… Mesmo indo totalmente prum lado de fantasia! Então…

A mente não para, nunca para, quando se pensa em tudo, você pode tudo, ver, sentir em todos os âmbitos, criar, na sua mente, uma realidade física, a pira fica forte, toma forma, voce pode pegar essa energia, pode deformá-la, transformá-la. Em qualquer coisa que você queira, você voa, sente o espaço, os ventos, passando por seus poros, por suas células, elas explodem, você explode, tudo é uma coisa só!

A importância do diálogo

Ele olhou para ela nua sobre os lençóis. O corpo era branco e a pele lisa, sem nenhuma marca. “Se você não me ensinar,  como e onde que posso tocar, como vou saber?” Eles conversavam muito durante as relações, tornando-a muito mais do que o simples ato de penetração sexual, da carne, porém uma penetração mental e de alma também. “Não te conheço para isso, estamos ficando juntos agora, ou a entrega é louca sem nenhum propósito que não sentir prazer, ou trocamos mesmo, com sinceridade, as nossas intimidades…” Ele sugeriu falando a última frase quase sussurrando, com anseio de ter iniciado uma briga justo naquele momento. Tão poucas semanas e opiniões muito fortes vinda dos dois lados, ele e ela formavam um casal enriquecidos pelos prós e contras de uma relação com uma vontade mútua. “Sem essa vontade, nós não vamos ficar juntos”. Ela dizia muito séria nas mesas de jantares sobre como poderiam levar a vida toda numa boa. E com olhos humildes como os de cachorro pedindo por comida, ele recebeu dela o “manual de instruções” para levá-la ao ápice do prazer, juntos. Ele e ela!

Desmaiado outra vez

Era uma peça muito bonita. Com certeza havia de ter pertencido a uma rainha, um rei ou algo assim. Era de madeira maciça, e seu topo estava cravado de jóias coloridas. No centro um enorme diamante brilhava. A fechadura era composta por uma caveira dourada. Em seus dentes inferiores havia a abertura para uma chave. Não dava para abrir com magia, muito menos com força bruta. Nem mesmo chaves mestras ou falsificadas conseguiram abrir aquele pequeno cofre. Dusva colocou-a em cima de uma mesa. Olhava fixamente para o objeto e tinha uma raiva muito grande neles. Nalhi adentrou o aposento e colocou a mão sobre o ombro do raivoso monstro. Ela deixou por uns segundos sentir compaixão, porém como a mais acidulada das três irmãs, se esquivou soltando um som parecido com o de um chocalho de cobra. “Precisamos abrir esse baú. O que tem dentro nos dará mais mil anos de vida. É nosso prêmio por derrotarmos a armada.”

“Independe disso irmã, uma hora ele estaria conosco. O problema é a chave. A lenda diz que somente quem domina os poderes sagrados e tem em sua existência o hibridismo, vindo de lugares profundos e quietos, como o ventre de uma fêmea, úmido e aconchegante…” Elas se olharam, “poderiam abrir o objeto como fosse e usar de seu poder.” Dusva pegou a arca e a lançou na parede. O som seco, e depois o nada. As duas se abraçaram e Nalhi terminou, “precisamos de um escravo, um humano. Ele pode nos conseguir a chave.” Dusva levantou a cabeça perplexa. “Serena!” As duas saíram apressadas do cômodo e foram atrás da irmã. “Onde ela está? Onde ela está?” Se perguntaram mas também, nada.

“Ela foi caçar. Foi atrás daquele jovem estúpido de novo.” Ao longe da vista das duas, a calda de Serena brilhava forte. Ela mergulhava e suspendia com força sua traseira, e isso a impulsionava rápido para seu destino. Seu pensamento estava fixo. Ela queria aquele garoto. Ela iria dominá-lo, depois manipular suas vontades, faria ele fazer de tudo para obter a chave. E depois iria arrancar seus membros e comê-los em frente aos olhos amedrontados de Buk. Vou fazer você sofrer pelo tempo perdido moleque.”

Em solo e aprisionado, Buk não podia fazer nada a não ser tentar dominar suas indecentes visões. Pensava em fazer amor com Serena, e ao mesmo tempo em se banhar em sangue. Sangue humano. Em que ele iria se esbanjar rolando seu corpo nu junto ao dela. Seus sentidos estavam confusos. Ouvia ordens do tipo “fuja”, “ataque”, “defenda-se” e “ataque” de novo, ao mesmo tempo que ia desferindo golpes e derrubando os soldados da Nação. Chegou de madrugada com uma chave de ouro no bolso e ficou escondido atrás de grandes pedras na praia, com esperança de não ser achado pelo Capitão e seus comandados, ou mesmo por Serena. “A Bruxa-sereia está vindo, estou perdido!” Foi seu último pensamento antes de sentir o golpe na nuca e desmaiar.

O Novo Grupo

MJ não podia acreditar no que ouvira de Josias. Ele e seus pais iriam se mudar de casa, no próximo final de semana, simples assim. “Adultos são complicados cara”, ele disse de cabeça baixa. Com isso eles não teriam o personagem principal da história mais com eles. Teriam que reescrever tudo ou pior, achar outros novos jogadores. Não queriam isso, sabiam por experiência própria, ao montarem esse pequeno grupo tinham saído de grupos maiores que davam em confusões com uns querendo mandar em outros e ninguém chegava em um consenso de boa. Os três apesar de serem diferentes em muitas coisas, tinham em comum a vontade de jogar uma aventura longa, algo épico que pudessem vivenciar mais ao fundo.

“Além do Fox, leva todos as peças, o tabuleiro, livros de regras e…” MJ colocou uma mão sobre a boca de Paolo e completou… “Justo hoje, que eu queria apresentar o novo livro pra vocês. Com nossas próprias aventuras. Ideias que escrevi das conversas que tínhamos. E Fox iria se apaixonar sim, contudo iria salvar ao lado dela todos os reinos e uniria os povos em um só, a grande irmandade, preservando a cultura positiva de cada um.

Josias deu uma fungada no nariz e abraçou os amigos. Fox falou para Rato. “Fim da linha amigo”. Não irei me apaixonar coisa nenhuma. Está vendo até onde estou vendo? Tem montanhas, tem rios, lagos, tem coisas que não enxergamos daqui, olhamos e não vemos. Mas sabemos que está lá, por que ouvimos de alguém, ou que já esteve ou que conhece alguém que foi para lá. Quero ir também. São escolhas como sempre, como um jogo de RPG. Posso ficar, casar com a Princesa Macia e me apaixonar. Ou…

“Meu nome é Elisa. E o dele é Fred.” A garota de cabelos ruivos e lisos com sardinhas vermelhas na cara falava com ar alegre para MJ. Ele olhou para os dois e ficou pensando como seria a reação de Josias, caso ele estivesse na mesma escola, visto que se mudou mesmo. Já sobre Paolo, ao chegar no refeitório e ver aquela formação com uma garota ficou mais animado. Dos três era o único que falava de paixão, casamento e coisas assim para o jogo. Os outros dois garotos não queriam saber de nada que não fosse resgatar uma jóia preciosa ou ter uma batalha gigantesca contra um ser maligno como o Dragão Azul ou as Bruxas-sereias. Paolo estava admirando Elisa. E apertou a mão de Fred com muito gosto também. O grupo definitivo acabava de ser formado.

A Princesa teria outros três aliados para sua jornada. Macia ficou durona. Agora era Fedora, o Dom. Barrel, o lizard imediatamente se ajoelhou fazendo reverência. MJ Disse que iria apresentar seu NPC na próxima semana quando fossem iniciar a empreitada. E Fred já havia jogado em outros grupos e carregava consigo dois personagens. Iria decidir qual seria o principal a usar na campanha, se o velho Mago Humano HRa-Ganh ou um adolescente também humano, filho de camponeses que havia participado de uma jornada em um campeonato recente e ganho um prêmio como “melhor personagem iniciante do ano”, ou algo assim, nesses eventos que acontecem em escolas e as pessoas se vestem como os personagens. Seu nome era Donato Bandoza. E quem jogava RPG para competir sabia quem era aquele garoto gordinho com boné virado para trás e uma bolsa de alça que carregava os livros e todos os apetrechos para jogos assim. Fred era um aficionado, por sorte ou sabe se como é a vida, por vários momentos, “melhores amigos” vão e vem.

Passa rápido…

Ele e ela estavam sentados em uma mesa dessas de praia, porém em uma rua de asfalto firme. O toldo era branco e a barra que o segurava estava reluzente. Mostrava o reflexo deles, e do sol que havia naquele final de tarde em que pintam o céu com cores que você não encontra em uma caixa de lápis de cores ou em tubos de tinta. Conversavam a toa, “essa poderia ser uma prova de que Deus existe, por que quem é que pinta o céu com aquelas cores?” O trivial seria o lindo de viver então. Assuntos banais desperdiçados com um drink nas mãos, sorrisos brancos e largos. Seriam reais? Por momentos, eram sim, ele a amava, ela o amava. Seguravam alguma coisa, uma das mãos dela estava sobre a dele, e depois uma outra dela e a dele. Apertavam de uma forma doce, para sentir que estava tudo bem, que aquela realidade que permaneciam segurando era por escolha deles, e que assumissem tudo, consideravam o casal mais lindo daquele breve instante.

Sentimentos Ambíguos

Essa curtinha é da Sara, numa noite em uma casa noturna de Sampa, onde o som costumeiro é uma homenagem aos lindos anos 60, ela estava dançando twist e rock n´roll embalada pela música de Jive Bunny e Master Mixers. Sapateava, rodava e balançava seu vestido de bolinhas sem nenhuma timidez. Viu Marcinha, sua melhor amiga, ser uma pessoa de muita presença e atitude. Ela sempre foi mais contida, porém com as viagens e aquela vivência com Marcinha, havia se não tirado sua vergonha, lhe dado coragem para curtir mais sem medo das línguas alheias. “Falar da gente sempre irão falar…” Marcinha soltou essa, “então que eu faça minha parte né!” E Sara dançou a noite toda com Alegria!

Demora um tanto para encaixar. Em dias chuvosos assim então, quando a vontade de sair da cama é nula, você não sabe se abriu mesmo o olho já que tudo continua na penumbra. Depois de um café forte, sente uma festa acontecendo na cabeça. Os neurônios começam a responder a tudo aquilo que você fez no automático. É como se percebesse que a alma está chegando ao corpo para dar bom dia. Então tem um momento de frenesi, parecido com o orgasmo, mas ele acontece somente no cérebro. A farra dos neurônios pode ser sentida em diversas partes da cabeça ao mesmo tempo. Alegria aparece com força e disputa com paixão quem vai tirar o primeiro sorriso do rosto de Sara. A noite inteira ela dançou e curtiu sozinha. Claro, fez par para vários rapazes, porém não quis se envolver com nenhum dessa vez. Ela terminou sozinha por opção, por que queria somente se divertir como o fez. Assim, abraçando forte o travesseiro e deixando seu corpo se acostumar com a vida nova, o largo sorriso na boca e o afago carinhoso de seus melhores sentimentos.

Ele é brasileiro, ela é taiwanesa

Teve aquela história que aconteceu nessa mesma época do ano, não me lembro de qual ano exato foi, mas talvez tenha sido há uns 3 ou 4 anos atrás. Aquela mulher magrinha estava com suas amigas em um evento que acontece na primeira, ou na última sexta-feira do mês no bairro oriental. Eles fechavam as ruas em linha reta, e essas eram tomadas de bares. Dentro dessa delimitação era permitido praticamente tudo. Você via pessoas fantasiadas, ou poderia pensar que eram pessoas usando roupas extravagantes. Havia mulheres vestidas de meninas, e meninas vestidas de monstros. Haviam caras como cowboys modernos e outros como ogros das cavernas. Uma festa eclética, cada bar com sua própria música e comida. Música oriental, música latina, rock americano, rock europeu. Os dois amigos, um brasileiro e outro russo compraram cada um sua cerveja que vinha em uma lata grande de uma marca diferente. O gosto amargo e forte dava choque na cabeça e na garganta. Eles encontraram outras pessoas amigas, em sua maioria mulheres do japão.

Estavam lá para aprender a língua inglesa e conhecer a ilha famosa pelo surf e suas ondas gigantes. Fizeram passeios legais, conheceram Pearl Harbor onde há um monumento em alto mar acima de um navio que afundou na segunda grande guerra. Ali nas proeminentes paredes brancas estavam escritos os nomes das pessoas que se sacrificaram pelo EUA. O brasileiro tinha uma dificuldade de entender sobre guerras, já o russo achava tudo muito normal, visto que seu país acontece coisas loucas o tempo inteiro, e eles participaram da segunda guerra como aliados e como inimigos.

Os dias por lá eram sempre ensolarados, as praias lotadas de turistas, porém bem diferentes do litoral brasileiro. Havia muitas pedras e muitos corais, os surfistas sabiam o lugar exato onde poderiam entrar para surfar, e iam longe mar adentro, onde as ondas vinham em sequência e eles podiam fazer suas manobras. Todas as vezes que ele viu essa cena, o mar se encontrava lotado de surfistas e banhistas. Waikiki era um enxame de pessoas procurando um lugar para curtir, ou acabavam curtindo por obrigatoriedade, já que não tinha como fugir daquela bagunça. Não haviam barraquinhas nas praias vendendo isca de peixe e cerveja gelada como no Brasil, contudo no que seria o calçadão, bares e mais bares, alguns restaurantes e lojas de marcas chiques disputavam os turistas com as areias brancas daquele local. Mesmo em setembro quando o verão ia dando lugar para a próxima estação, os ambientes estavam sempre cheios e concorridos por gente que queria saciar a curiosidade da culinária hawaiana ou polinésia, e fazer compras no shopping. Honolulu era uma cidade como outra grande cidade de um milhão de habitantes. Trânsito intenso, loucos gritando bêbados pelas ruas, à noite ou de dia, buzinas, estudantes apressados e homens de terno escuro num calor de 37 graus.

E os dois, o brasileiro e o russo, tinham a mesma curiosidade. Por que haviam tantos orientais na ilha. Ficaram sabendo que o Hawaii apesar de parecer misterioso e selvagem, e sendo o lugar mais afastado de qualquer continente, recebia turismo de diversas partes, mas especialmente do Japão, China e Taiwan. Pode parecer loucura, mas o Hawaii é mais barato que o Japão para passear, segundo disseram. E Taiwan era tipo a “China que deu certo”. Eram capitalistas e tinham seus olhos voltados para os costumes do mundo ocidental. Era de lá que a mulher magrinha do começo da história vinha. Estava vestida com uma saia pouco acima do joelho, e uma camiseta que deixava os seios marcados. Os cabelos castanhos e cheios caiam sobre os ombros e tinha uma feição bonita para uma garota oriental, já que o nosso amigo brazuca não tinha lá muita gosto para os de “olhinhos puxados”.

Mas a fama é algo bacana em certo ponto, brasileiros são considerado um povo alegre, festeiro, que sabem dançar e jogar futebol. Nesse último caso, não lhe agradava em nada por que ele não sabia chutar uma bola direito. Porém gostava muito de balançar o esqueleto, e como os orientais não tem o molejo brasileiro nem o jogo de cintura, qualquer balançada da cintura fazia a dança parecer bem mais legal do que realmente era. Foi assim, junto daquela turma diferente, dançando músicas latinas que encontraram em um dos bares curiosos daquele bairro “chino”, se divertindo jogando sinuca que os dois se conheceram. Ela ficou entusiasmada com ele, perguntou para a outra tawainesa com quem ele dividia a turma do curso de inglês, quem ele era. Ele sacou a atenção dela e se fez de pavão, mostrando passos estranhos e até engraçados, e que no entanto deixavam ela inquieta.

Ele a pegou pela mão e falou, “vem, vamos dançar”, e ela com um sorriso enorme na cara, levantou tímida olhando para as amigas, mas não resistiu e arriscou alguns passos que seu corpo nunca haviam dado. Descobriu que tinha cintura e que ela servia para se sacudir inteira ao ritmo quente que agitava aquela noite. Foi por volta das quatro, talvez das cinco da manhã que eles se beijaram. Ele lembra vagamente por que achou tudo muito rápido. Primeiro dançaram, depois jogaram uma partida de sinuca, ela saiu para beber uma cerveja, e voltou para o lado dele e tornaram a dançar juntos, dessa vez ele trouxe o corpo dela pra perto e mostrou alguns passos mais ousados. O clima ébrio sempre ajuda, e tiveram uma divertida noite como o casal mais distinto daquela turma mesclada de pessoas orientais, e ele ali no meio, o brasileiro que tinha sido aceito na comunidade deles.

Uma Viagem Gostosa

E a Sara, por onde andava agora? Desde que tinha saído do Rio e se embrenhou pelas montanhas de Minas, não tínhamos ouvido falar mais dela. Sabemos que estava ansiosa pois o pequeno monstrinho da Duvida deixou seus sentimentos dispersos. Ela pensava na melhor amiga, mas não sentia aquela atração que teve por exemplo, pelo seu ex-terapeuta, alguma coisa além das borboletas na barriga, alguma coisa que mexia com seu sexo e com sua cabeça ao mesmo tempo. Para chegar ao seu novo destino, decidiu que iria conhecer um lugar diferente, que ela ouvia muito falar por casos de magias, bruxas, uma pedra gigante que era pista de pouso para naves alienígenas e uma comunidade alternativa. “Não vou virar hippie!” Dissse a tia Helen pelo celular. “Quero ir a São Tomé por que conheci alguns colegas que falaram muito bem desse lugar, está chegando o ano novo, então acho que vou para lá ver o que acontece tudo bem?” Era uma pergunta retórica, mesmo que a tia dissesse que não, ela faria assim mesmo essa viagem. “Sim tia, vou tomar muito cuidado.” Preocupações à parte Sara pegou um ônibus que a deixou em Volta Redonda, ainda no estado carioca para pegar uma carona por um desses aplicativos modernos. Agendou com o motorista e soube pelo próprio app que ela teria companhia de mais 2 pessoas além do próprio condutor.

Vieram conversando bastante pelo trajeto, a motorista era uma mulher por volta de seus 25 anos, e viajava de férias com o namorado. Iriam para Varginha, uma cidade que fica depois de São Tomé das Letras, rota de Sara, portanto poderiam deixá-la bem próxima desse lugar passando por cidadezinhas como Pouso Alto, São Lourenço e Caxambu, todas já no estado de Minas Gerais. Dali pegou uma van que chegou por volta das 17hs em São Tomé, e ela foi procurar o hostel que havia também agendado através de um aplicativo de acomodações baratas. “Como minha tia me orientou, vou usar a grana como se não a tivesse!” pensou ao falar com o recepcionista programando sua estada para 2 noites. Caso fosse tão legal quanto parecia, ficaria mais dias, porém seu interesse era a virada de 31 para o dia primeiro de janeiro.

E a magia aconteceu na manhã seguinte, não do jeito que ela imaginou, aliás nunca é do jeito que fantasiamos. Subiu no teto de pedra da casa da bruxa e fumou um baseado com pessoas amigas que fez pelo caminho. Comeram um brigadeiro enfeitiçado, foi o que vendedora disse, uma garota hippie com trancinhas cheias de fitas e uma roupa muito colorida com flores diversas. E ficaram ali papeando até o meio dia, quando a barriga revirou e o estômago pediu por comida. Ela havia acordado cedo e tido um café da manhã típico das cidades mineiras, recheado de café, doces, bolos e sucos. Passeou por trilhas ingrimes até uma cachoeira linda, onde nadou meio timida pela presença de tantas pessoas ali. Agora junto com mais 3 colegas que havia feito no hostel, iriam compartilhar um assado de porco banhado em vinho com suco de abacaxi e hortelã geladinho.

A noite se aproximava e depois de fazer um passeio pelo pequeno centro, tradicional das cidadezinhas onde tem a praça central, a igreja da matriz e o comércio em volta. As lojas estavam cheias de turistas comprando filtros de sonhos, peças decorativas feitas de cerâmica, e camisetas “estive em São Tomé e vi a bruxa”, coisas assim. Os hippies estavam espalhados vendendo suas bugigangas e outros tocando violão e instrumentos de sopro que imitavam passarinhos. Estavam sempre com uma aura tranquila e um sorriso largo no rosto. Sara deu atenção a algumas pessoas que ela sentia curiosidade de conversar, de saber mais daquele outro tipo de vida, algo que ela nunca tinha visto ou vivido tão de perto, já que seus pais quando vivos eram empresários e sem tempo para viagens ou qualquer outro programa com a garota. Não lhe faltava nada de material, tinha o celular mais moderno, o notebook da apple, roupas e sapatos, e claro, seus pais a amavam, mas o contato físico era pouco devido a esse tempo mal aproveitado entre eles. Era disso que ela mais sentia falta, e era um dos motivos mais fortes que a levaram a viajar. Na bolsa carregava sua carteira, e dentro dela uma foto dos 3 juntos, ela devia ter uns 10 anos na época, estavam pousando de costas para o mar, aquelas caras felizes. Essa foto a fazia lembrar como foi legal aquela viagem, como era bom ter pais tão generosos como os seus. Iria aproveitar todo dinheiro que havia recebido para viajar com “eles” e por eles.

Depois de tomar um banho e se aprontar com um vestido branco e liso, com renda na altura dos joelhos, saiu para encontrar suas novas amigas e juntas irem curtir o reveillon pitoresco de São Tomé. Uma delas carregava duas garrafas de vinho dentro da mochila, e a outra armou 2 baseados que havia conseguido de um hippie. Esse ao vender o cachimbo disse a elas que já tinha ganho o dia e que não iria mais trabalhar. Elas pagaram 25 reais no objeto, e Sara teve esse vislumbre de como podemos viver bem e felizes com tão pouco. “Menos preocupações” ela perguntou e ele complementou dizendo que necessitava apenas de um dinheiro para comer e dormir, por que amanhã era outro dia.

Então dançaram ao som de músicas mineiras, de músicas internacionais, na praça junto de outras tantas pessoas que ali estavam para o festejo. E ao dar meia noite, elas fizeram um combinado no mínimo curioso, dançaram em volta da mochila para estarem sempre viajando, para as portas mágicas de São Tomé que diziam as lendas, era conectada através de um portal com Machu Picchu no Peru. Foi uma viagem enriquecedora, ali começou a aprender sobre desapego, sobre solidão e estar sozinha, sobre oportunidades que surgem se saímos da zona de conforto, sobre viver de maneiras distintas que são tão boas quanto aquelas que Sara acompanhava nos seriados televisivos. Paixão a acompanhou o tempo inteiro, e ela decidiu ir conhecer a comunidade alternativa, mas só iria depois de deleitar-se com aquele jovem hippie com seus dreads longos em mais algumas cachoeiras e trilhas locais.

Metaliteratura…

Ao redor de uma antiga e aconchegante lareira, aquelas três pessoas compartilhavam de forma entusiasmada, algumas guloseimas e sucos, histórias de mil sabores diferentes. A pequena sala tinha um sofá xadrez bem judiado pelo passar dos anos, e lá estava sentado o mais velho. Iluminado por uma fraca luz de um lampião, estaria por volta de seus 82 anos, “humanos”. A cabeça com pouco cabelo, e os que sobravam eram brancos e brilhantes. Continuava usando um gorro, não era mais aquele lá de outrora, o que fez desse senhor uma lenda quando jovem. “Ou se não, pelo menos participou de uma boa história”, como ele mesmo adorava mencionar.

Contava entre uma baforada e outra de um fumo no cachimbo que durava horas, e que deixava o senhor mais relaxado para contar os “causos” de piratas daquela parte de onde moravam. “Estou aqui a vida inteira, só sai para ir para dentro do mar.” Bateu as cinzas na beirada da cômoda esculpida por ele em madeira bruta. “Não conheço outras terras, mas tenho uma história linda para contar. Começou com tragédias e guerras, e terminou num grande amor, ou pelo menos de minha parte. Eu acredito que aprendi a amá-la por tolerância. Tornei-me cúmplice e procurei entender o lado delas na situação.” Éramos assim também, seres humanos nos achamos racionais por que criamos leis que limitaram nossos extintos. Sentimos fome e vamos ao mercado, mas e se… Comecei a caçar por ela, e a gostar de fazer isso, por que as guerras pararam. Pode parecer loucura, mas no reino animal, os mais velhos se retiram de cena, eles sabem que irão morrer e procuram ir para lugares onde vão fazer sua passagem numa boa. Os doentes bem, vão mais rápido que os sadios, e quem não irá? Se as sereias não comem, elas não podem continuar existindo, é uma lei de sobrevivência que vale para qualquer ser na terra, inclusive nós mesmo. Continuamos matando, mas criamos coisas que façam a dor dos animais serem apaziguadas, vai entender.

O velho pigarreou e voltou a por o novo gorro. Apontou para o outro ainda pendurado solitário no alto de um cabideiro de madeira entalhado pelas suas próprias mãos. A prova do que eu falo pra vocês jovens, é a mais pura verdade. Sentada num tapete grosso e felpudo, a menina estava fascinada, suas pintinhas no rosto eram parecidas com as do velho, e usava uma coisa de metal na boca, para acertar alguns dentes. Ela falava engraçado por conta disso. Estava por volta dos 13 anos e era prima em primeiro grau do garoto. Ele era um ano mais novo, e era muito agitado também. Compartilhava o tapete com ela, usando almofadas de um tecido macio e liso. Era ali naquele ambiente contemplativo onde apenas as histórias de seu avô o deixavam quieto por mais de uma hora. Aliás, quando o senhor marujo Buk “Quatro Olhos” sentava para falar, era bem mais legal que ver qualquer filme de terror, romance ou ação de hoje em dia. Imagina os idos de 1720 e alguma coisa, um homem calvo, com muitas rugas na face e cicatrizes pelo corpo que contavam aventuras que eles estudavam em seus livros de escola. Descrevia com detalhes ricos essas situações incertas que havia vivido com a idade aproximada das deles. “Eu era um pouco mais velho que você Anita.” Embaralhou o cabelo dela com a mão. “E você homenzinho, ele tirou o pito da boca, pode comprovar essas histórias agora comendo as delícias feitas por sua avó.”

Serena não envelhecera nada, aliás estava “humana” e muito linda. Vestia um traje longo e escuro e os cabelos acompanhavam, ondulantes pintados como sempre com algumas mechas de cores extravagantes. Dessa vez eram roxas e verdes. Ela estava de costas para os três e misturava algumas coisas numa velha panela de ferro. De vez em quando olhava de esgueira para Buk e tinha uma paixão forte ali. “Era para eu ter te manipulado garoto. Era para eu ter acabado com você há tempos. Mas não o fiz. Ainda não sei bem o por que, vi você envelhecer ao meu lado com minha decisão de mantê-lo. E agora sinto uma falta grande e nem se foi ainda. Como isso pôde acontecer?”

 

Ex-namoradas…

Então você é aquilo que você se lembra, aquilo que fez sua caminhada até os dias de hoje e procura em cada pedacinho, em cantos remotos da sua cabeça as memórias mais profundas sobre pessoas e fatos, aqueles que te marcaram mais positivamente. O que você anda fazendo da sua vida agora tem mesmo haver com o que você fez no passado? Estamos aqui por expiação, pelo que fizemos em “vidas passadas” e ainda tem os erros e as escolhas mal feitas de agora, pela falta de experiência ou de entender uma orientação dos mais velhos quando nos dizem “não faça isso que vai dar problema”. E quando você perceber, deu mesmo; um grande problemão que não tem solução, a não ser cicatrizar como um machucado, apenas o tempo faz isso por você, e não… não apaga, a cicatriz é uma marca para te lembrar justo dessas suas “merdinhas” vividas.

Me recordo de um filme muito legal com o John Cusack e a Caterina Zeta Jones, baseado num livro homônimo chamado em português de “Alta Fidelidade”, onde ele procura as ex-namoradas para entender por que seu namoro atual vai de mal a pior… E você olha pra trás e pensa, cara o que vivi com tal pessoa fez o que sou hoje por conta de traumas afins, ou ter uma atitude assim ou assado por que com aquele infeliz relacionamento você teve um impacto negativo e então pela dor que aquela marca provoca é melhor não repetir, por que sabe que vai ser ruim demais. Mas e se não fosse, e se não vivêssemos pensando no que foi e no que será, por que não pode ser sempre bom? Utopia à parte, sermos seres que aceitam de forma tão passiva as intempéries da vida que não é nada fácil, até por que não escolhemos como é o “viver hoje”, tem muita gente só fazendo coisas e ninguém sabe o motivo ou questiona um.

No meio de tanta bagunça a internet que veio para provocar, questionar, apaziguar, alienar. Também produz caos nos relacionamentos e de vez em quando, ajuda a tranquilizar. Você revê fotos das pessoas, algumas são bacanas, você vai lembrar de histórias boas e histórias ruins, e no fim um clique na cabeça e bam, suas escolhas não foram tão insatisfatórias assim. Não se arrepender é difícil, não pensar que está dando um passo para trás ou que teve tantas oportunidades que outros matariam para ter e jogou tudo para o alto para simplesmente viver dia após dia, e olhar para esse passado só reforça que sim, a bagagem que adquirimos nos mostra quais erros podemos evitar se fizermos alguns tipos de escolhas. Não é prever o futuro, muito menos mágica, não funciona assim, porém nos deixa mais cabreiro, mais alerta, mais defensivo.

No entanto não se compara cara, não veja a vida de outros, incluindo de “seus passados” achando que fez tantas escolhas erradas, que está mal perante a esse passado. O conhecimento adquirido da estrada é uma escolha tão difícil quanto aqueles que escolhem ser gado sem questionar, o bendito e maldito ditado “a ignorância é uma benção”. Então se apaixona de novo, conhece um novo amor, há muitas pessoas, são muitas chances, muito mais que você imagina, basta sair de casa, tirar a bunda do sofá e se jogar sem medo de ser feliz. Vai que vai meu velho, vai em frente por que ainda tem  um tempo para viver nessa terra louca com os humanos mais loucos ainda, e se não for para ser bom, então para que serve mesmo?

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