Buk e o plano de vingança

Nessas épocas em que a pirataria era clássica e desonesta, os corsários eram considerados o lado ruim pela classe burguesa, entretanto eles tinham estilo, eram bastante ousados e sempre sedutores. Suas roupas mendigavam por uma costura, uma limpeza simples com uma escova que fosse, e estariam fardados como qualquer oficial do Principal Comando da Nação. O Capitão surgiu no meio dos destroços de seu indômito navio. De onde estava a cena pode ser descrita como um homem forte e triste que sobreviveu como que por milagre. Retirou um pedaço de beiral da cabine que atravessava seu caminho e ergueu o corpo completamente ferido. Sentiu uma pontada no braço direito, uma fisgada no pescoço e as pernas estavam pulsando na altura das coxas. Cambaleante foi até o que seria a proa e recostou-se em uma parte da grade de madeira que estava inteira. Olhando o horizonte soltou um grito de raiva, mais forte do que a dor que sentia e jurou vingança contra aquelas monstruosidades.

Não pode acreditar no que veio na sequência, avistou uma embarcação se aproximando e quem estava na gávea. Sim, o garoto encrenqueiro das aventuras passadas com aqueles óculos grossos. Ele nos trouxe até os monstros em uma oportunidade, vai me levar até elas de novo. E desta vez estarei melhor preparado, juro pela minha unidade de comando, irei vingar cada um dos meus homens e trarei os rabos dessas malditas “mulheres-peixes” de uma vez.

O Capitão foi então resgatado por um navio mercante, homens de diversas estirpes estavam a bordo e vieram procurar pelas embarcações destroçadas para ver se ainda teria alguma pessoa viva. Aportaram na praia de Bela Mar, um vilarejo pequeno e totalmente devoto ao Principal Comando da Nação. Os moradores eram humildes pescadores que haviam recebido novos barcos e equipamentos para pesca, e para tanto faziam vista grossa às estripulias que os oficiais participavam noite adentro com as mundanas no único bar da região. Ali também eram feitas algumas reuniões clandestinas para as conspirações de poder do Capitão e seus homens. E em teoria essas conversas não chegariam ao ouvido dos Governantes Imperiais da Nação. Ao atravessar a porta foi até o balcão do bar e falou no pé do ouvido com um sujeito de ombros largos e cabeça quadrada que lembrava um ogro, caso você já tenha visto algum sabe bem como é. O homem se retirou limpando as mãos em um trapo sujo e jogou no balcão. Alice, o ogro chamou uma mulher que usava bandana vermelha sobre os cabelos também vermelhos. Cochichou algo para ela e com um ar sério ela se retirou do bar sumindo por umas horas.

E lá estava Buk, o jovem que se metia em encrencas sem saber como, tinha as mãos amarradas para trás e dois trogloditas, um de cada lado para assegurar que não fugiria. O Capitão se aproximou já todo enrolado com faixas e curativos pelo corpo. Maria Gancho é a senhoria desse bar, é uma velha amiga, e conseguiu me deixar quase novo, não acha meu jovem? Perguntou com um sorriso feio na cara e apontava para o outro lado onde uma senhora baixa e gorda usando um vestido florido que a deixava parecida com um botijão de gás, atendia mais um freguês com um caneco de chope. Por que me prendeu, eu lhe ajudei, trouxe os homens para resgatar o senhor e sua tripulação. O olhar do Capitão para ele foi severo. Fez um gesto com a mão e Buk “Quatro Olhos” se calou na hora. O que não entendo é por que você sobreviveu. Participou de 2 ataques daquelas coisas, e conseguiu sobreviver aos 2. Um moleque esquálido como você, me conte tudo garoto, quero saber tudo o que viu naquela noite e por que elas te deixaram viver.

Ele olhou para o sujeito da direita, tinha uma face torta com um nariz grande que parecia ter levado uma tijolada na cara. O Capitão fez um gesto e o homem tirou um punhal da cintura. Buk esbugalhou os olhos e engoliu seco. Por favor senhor Capitão, eu lhe conto tudo o que quer saber. Nesse momento o ogro levantou o braço e Buk se encolheu todo já sentindo o golpe quando as cordas em seus pulsos se afrouxaram após a navalha afiada passar rente a sua pele. Ufa! Soprou aliviado. Ei Maria, traga um chope para esse garoto. Temos muito o que conversar, pode ser que hoje seu estabelecimento tenha que ter uma hora extra de funcionamento. E voltou a encarar o menino.

Buk não sabia onde estava se metendo. O primeiro ataque ele considerou como um azar danado, mas o segundo, com o que havia ocorrido na Ilha de Pedra, a Bruxa-Sereia disse que havia transformado-o em uma espécie de zumbi. Que em certos momentos iria sentir uma dor que se intensificava e a medida que sua barriga repuxasse sua vontade de sangue seria como a delas. Ele iria atacar para defender sua doutrinadora. Passou a mão na barriga e sentiu uma contração desagradável. Deu uma golada e a bebida gelada desceu cortando sua garganta. Engoliu uma, duas vezes seguidas, goles grandes. Enxugou a espuma com a barra da camisa puída e pensou se poderia contar todos os detalhes, se a Bruxa realmente iria saber caso ele a traísse. Eu não quero ser um monstro Capitão, quero minha vida normal de volta, mas eu posso sentir ela bem aqui. Levantando a camisa mostrou a cicatriz feia, grande e ruguenta. O Capitão prometeu ao garoto que iria ajudá-lo, no entanto era uma troca. Eles usariam o plano da bruxa ao contrário. Buk teria que atrair aqueles seres abomináveis para que o Capitão conseguisse sua vingança, com um detalhe, o baú. Quero o conteúdo do baú. Mas eu não sei onde ela o guarda e nem o que tem dentro dele, o grumete falou já enrolado pela bebida. O Capitão fechou a cara de novo para Buk. Não te importa o que tem lá dentro certo, eu sei e você tem que me prometer que não vai abrir o baú por nada. Vai conseguir ele para mim, e depois atrairá todas aquelas bruxas para que possamos acabar com elas.

Sara sentindo Paixão…

As duas chegaram no saguão da rodoviária às 19 horas. Tia Helen vestia uma confortável roupa de lã e usava um chapéu espalhafatoso que não combinava em nada com o cachecol pintado de oncinha. Sara se divertia com ela, gostava do jeito “perua” da tia e com certeza sentiria saudades dela, principalmente dos conselhos sobre “como ser adulta”. A garota usava um jeans surrado e uma camiseta branca por baixo do seu tradicional moleton cinza, carregava uma mochila nas costas, uma mala de rodinhas e uma bolsa para os documentos e seus apetrechos essenciais. Seria a primeira vez que Sara viajaria “sozinha”, já tinha quando pequena visitado parentes no interior, passando férias e feriados nos sítios de algum primo ou tio desses de 4º grau, só que agora não tinha ninguém para responsabilizar-se sobre si, estava por ela mesma, e isso dava um frio danado na barriga. Decidiu ir encontrar com sua melhor amiga dos tempos de escola que agora morava no Rio, e iria passar uma temporada lá para ver o que fazer, afinal com tanto tempo e dinheiro, ela só precisava mesmo tentar ajustar seus sentimentos para que não causasse nenhum problema alheio.

Lembrou-se do terapeuta e da confusão com sua ex-namorada, o ciúmes tinha tomado conta e a impulsividade obrigou o sentimento a atacar. Sara abaixou a cabeça envergonhada. Não precisa ficar assim Sara, disse a Tia acolhendo a menina com um abraço. Todos cometemos erros, você tem muito tempo para pensar no que fez e pedir desculpas sinceras. E quem sabe até, com essa viagem que quer fazer não aprende a se controlar um pouquinho. Deu um sorriso para Sara e ela ainda de cabeça baixa também sorriu. O aviso do ônibus das 19:30 foi anunciado, elas se despediram com um caloroso abraço, Sara ouviu mais alguns conselhos do tipo “tome cuidado”, “não confie em ninguém”,”use seu dinheiro com sabedoria por que senão acaba”, e o mais importante, “vá ser feliz!”

Ela entrou no ônibus e procurou seu assento, depois de ajeitar a mochila no compartimento de cima, sentou-se sozinha e notou que não haviam muitos passageiros naquele ônibus. Talvez fosse assim o caminho todo e teria a poltrona dupla para si. Chegou perto da janela e viu sua tia ajeitando o chapelão balançando as mãos cheias de anéis e pulseiras. Abriu um sorrisão para ela e fez o gesto de coração com as duas mãos mandando um beijo por dentro. O motorista ligou o motor e Sara percebeu o ônibus tremer. As borboletas agitavam em sua barriga a cada momento e ela recostou-se no banco e fechou os olhos. Estava na hora de partir, de mudar, de ter uma coragem que ela estava sendo obrigada a ter, era o que constatava, e do seu lado apareceu um monstro gigantesco, que ela ainda não havia visto nem lembrava de tê-lo sentido tão intenso.

Ele deu uma lambida e babou todo o rosto dela deslocando o capuz do casaco deixando-a molhada. Sara soltou uma gargalhada imensa. Sentiu-se livre, sentiu-se aliviada, sentiu que iria se apaixonar por tudo que estava por vir. Abraçou o gigantesco bicho e ficou muito acolhida pela Paixão. O ônibus ganhou a estrada e ela sonhou durante as próximas 6 horas tentando não idealizar nenhum acontecimento, apenas deixando aquela sensação fazer o tempo ser agradável demais. Ela estava decidida que iria viver mais solta, deixando a vida levar, por que com aquele monstrão do lado, parecia bem mais fácil.

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