Deos…

Se todo movimento é caos! Imaginem só, uma espécie que se considera dominante pelas escolhas um tanto estranhas, lembrando que ele não estava para variar tentando julgar nada nem ninguém, o que em nossa infeliz língua portuguesa é um fardo imenso!… muitas aparências diferentes, e dentro dessas que eram meio que “padrões”, haviam variações e pelo número crescente dessa população, era difícil mapear tudo e todos, as características marcantes e as que se adquiri ao longo de uma vida, que aproximava pela estatística de uns 80 anos… Ele sentado em seu banquinho se encolhe com o barulho da cidade… é tão pouco, parece muito… mas é muito… pouco…

Continuando a piração daquele momento, essa mesma espécie precisava se entender entre si, um direto com o outro, e na sequência com os seus mais próximos, sendo a definição de família, depois escola, trabalho, e por aí vai… O que importa é que estava difícil transmitir informação, complexo de entender os outros e a si mesmo, como se houvessem constantes acidentes de trânsito bloqueando tudo, não permitindo a fluência do bom papo de boteco… lembrou que havia parado de beber… até quando seguiria ao que acreditava ser suas predileções, ainda assim em alguma parte ele queria que os “programadores” não fossem de verdade…

Como é que Você Está?!

Tudo bem? Ele puxou a cadeira para que ela pudesse se sentar e ela agradeceu com uma risada e uma dessas piadas que rolam sobre as diferenças bestas entre gêneros, e os dois num belo entendimento continuaram rindo em consenso ao que importava entre eles, o interesse para o bom e o bem, e nada mais…

Acho diferente um terapeuta atender em um… café? Ela mexia nos volumosos cabelos pretos e ele acompanhava tudo com os olhos, analisando cada detalhe de seus gestos… Bem, aqui não é exatamente um café, café… Está mais para um desses Pubs sabe, tipo coisa de gringo, luz baixa, rock and roll e tudo mais… Acontece mais a noite, eles resolveram abrir de dia também, servem agora o café, e aqui estamos! Ela estava toda sorrisos, uma boca linda e vermelha de baton. Ele usava um óculos de aros finos e um bigodinho de “cafajeste” de filmes da pornochanchada brasileira. Era um sujeito engraçado, o terapeuta.

Bem, essa é a nossa primeira sessão. Eu costumo utilizar métodos variados e diferentes dependendo do caso. Quando você me ligou essa semana, pensei qual seria o melhor jeito de abordar uma pessoa com suas características iniciais para eu analisar e lhe devolver o melhor relatório particular e completo de possíveis soluções para, hmmm, digamos, aquilo que você considera problemas em sua vida. Esse homem, usando uma camisa fina e branca com linhas finas em tons azuis, sentava de frente para sua cliente com uma visão angular de toda a extensão da praia. O lugar se situava em cima de uma pequena inclinação colocando-o em posição privilegiada para ver parte da cidade de um lado e do outro com maior visão a imensidão calma do oceano. Ela voltou a mexer nos cabelos, e eles continuaram assim por mais alguns minutos, se conhecendo, ele apresentando alguns pontos incisivos de seu roteiro como terapeuta e ela curiosa em saber como aquilo se daria.

Primeiro ponto, você não pode espelhar e nem mesmo transferir qualquer sentimento ou emoção sua para mim. Eu estou aqui para te ouvir, e quem sabe aconselhar, apesar de eu não gostar muito de conselhos, nem para mim, ou o outro. Acredito no empirismo, sua experiência é só sua, e é por isso que é preciso compartilhar, e quem ouve, tem que ficar quieto, saber ouvir, sentir as emoções de quem fala. Isso confunde bastante a cabeça das pessoas, e com gentileza lhe digo, não sou um bom homem. Sou um ótimo doutor, mas tenho muito defeitos masculinos. Deram risadas enquanto a atendente chegava com um pequeno cardápio. Enfim, escolhi o café pois senti uma profunda empatia por você. Acreditei que se sentiria mais tranquila e confiante para me conhecer e abrir seu íntimo para uma pessoa que nunca viu, e só por que tem um diploma pendurado em uma parede sem vida e leitosa, naquela luz baixa que escurece e deixa o lugar com uma atmosfera meio, fúnebre, não significa nada, para mim, nada…

Algumas pessoas me procuram por que falam da necessidade da própria terapia em si. São pessoas insatisfeitas que buscam desesperadamente por ajuda, mas não sabem que a ajuda real vem de seu íntimo, e de forma muito humilde, creio que minha profissão serve mesmo é para isso, apenas para ser um canal, ou um catalisador, algo que a pessoa possa desopilar sobre qualquer coisa sem nenhum tipo de julgamento do outro lado, e por conta disso, e sabendo dos sigilos que a profissão nos reserva, sabemos de muitas coisas, hmm, diferentes, que as pessoas sentem, ou fazem, entende isso?…

Uma hora depois terminaram o café. Se cumprimentaram e ela seguiu o caminho contrário ao do terapeuta. Ela foi para casa, e sabia que teria uma semana no mínimo singular. Ele foi para uma praça que tinha bancos largos de madeira bem rústicos em cima de pedras e concretos, com uma linda vista para o canal que cortava parte da praia e era onde atracavam os barcos das pessoas ricas. Não pensou em nada em particular. Passou apenas alguns minutos para sentar um outro sujeito, com um olhar forte e profundo. Eles apertaram a mão e o terapeuta começou sua sessão…

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